sábado, 29 de junho de 2013

A argumentação oral formal em contexto de sala de aula

A argumentação oral formal em contexto de sala de aula

Carla Marques
Agrupamento de Escolas de Carregal do Sal

0. Algumas das investigações desenvolvidas no âmbito do oral formal têm revelado que o seu ensino sistemático em contexto de sala de aula é pautado por dificuldades de ordem diversa que passam tanto pela falta de preparação dos professores como pela dificuldade em desenvolver um tratamento sistemático do oral formal como ainda pelas dificuldades que são inerentes ao próprio ensino da expressão oral, pelo facto de se tratar de uma produção sonora que exige ouvintes e que se caracteriza pela efemeridade.
      Foi neste contexto que desenvolvemos uma investigação-acção em torno da argumentação oral formal em contexto escolar, que se centrou em três eixos fundamentais: uma reflexão científica em torno dos domínios estruturantes da argumentação; uma reflexão de cariz pedagógico-didáctico centrada na definição de um modelo de práticas a desenvolver; uma reflexão a partir de produções orais de alunos do ensino secundário.

      1. A reflexão em torno da argumentação que desenvolvemos assenta no seguinte conceito:
A argumentação é uma actividade linguística, fundada num processo intelectual, que surge a partir de uma situação de divergência de opiniões e que tem como objectivo nuclear defender, de forma persuasiva, um determinado ponto de vista, por meio de um texto argumentativo constituído, na sua forma elementar, por argumentos que sustentam uma determinada conclusão. Uma vez que exige a presença, explícita ou implícita, de dois intervenientes, um locutor e um alocutário, a argumentação é, por natureza, uma actividade dialógica, sendo os textos argumentativos inerentemente polifónicos.
Um texto argumentativo é composto por blocos textuais. Estes são segmentos de texto, que se organizam e estruturam em torno da função que assumem no interior do texto. No que respeita ao texto argumentativo, em particular, consideramos que, na sua forma mínima, este é composto por dois blocos textuais considerados nucleares:
Argumento(s) – Conclusão[1]
Nesta linha de análise macro-textual, num texto argumentativo bem formado, só existe um bloco com função de conclusão. Consequentemente, todos os blocos textuais que se relacionem com o bloco conclusão no sentido de o justificar ou de o refutar, terão a função de argumento. É evidente que temos uma análise centrada num outro plano poderá levar à defesa de que num mesmo texto argumentativo se identificam várias conclusões. Observemos o texto argumentativo que se segue, onde está presente um bloco textual argumento complexo, que desenvolve uma ideia nuclear com função de sustentar uma conclusão, que corresponde à posição defendida:
(1)       [A sopa é óptima para as dietas,]conclusão [[porque reduz o apetite,] [o que ajuda a perder peso.]]argumento complexo
Se analisarmos internamente o argumento complexo, verificamos que as sequências que o constituem não partilham a mesma função. Com efeito, [porque reduz o apetite,] afirma-se como um argumento principal, ou seja, aquele que encerra a ideia nuclear do argumento complexo, enquanto o segmento [o que ajuda a perder peso] funciona como um subargumento, na medida em que se relaciona directamente com o argumento principal, sustentando-o:
(2)       [A sopa é óptima para as dietas,]conclusão [[pois reduz o apetite,]argumento principal [o que ajuda a perder peso.]subargumento]argumento complexo
Não obstante, é também a partir do enunciado apresentado em (2) que poderemos confirmar que o texto argumentativo é construído por estruturas recursivas. Com efeito, se autonomizarmos o bloco textual argumento complexo, observamos que o argumento principal assume o estatuto de conclusão, passando o subargumento a funcionar como argumento (principal):
(3)       [A redução do apetite numa dieta é importante,]conclusão [pois ajuda a perder peso.]argumento
A recursividade que se regista nesta construção pode, como é evidente, ser reproduzida em n sequências encaixadas. Nesta óptica, seria possível analisar um texto argumentativo numa perspectiva hierárquica, que partiria de uma conclusão nuclear que seria sustentada por argumentos, que, sendo complexos, teriam no seu interior outras conclusões encaixadas. Por esta razão, pode considerar-se que um bloco textual que assume a função de argumento relativamente a uma conclusão, no caso de possuir uma estrutura complexa, é composto por uma conclusão sustentada por novos argumentos:
(4)       [[pois reduz o apetite,]conclusão 2 [o que ajuda a perder peso.]argumento]
Os blocos considerados nucleares poderão, ainda, ser submetidos a uma análise de outro cariz que permitirá considerar diferentes tipos de conclusão e de argumentos, nomeadamente a conclusão própria e a conclusão alheia, os argumentos próprios, os argumentos alheios e os contra-argumentos. Este enfoque torna-se particularmente relevante nos textos argumentativos monogerados onde se assiste a um confronto de posições: um dado locutor verbaliza, por um lado, a posição defendida por um oponente bem como o(s) argumento(s) que aquele invoca para a sustentar e, por outro, a sua conclusão própria e os seus argumentos próprios. Sabendo ainda que uma das possibilidades de movimento argumentativo consiste na apresentação de contra-argumentos, cuja construção se orienta no sentido da refutação de argumentos alheios, consideramos que é também pertinente distinguir o bloco textual contra-argumento do bloco argumento próprio pela função específica que aquele desempenha num texto argumentativo. De facto, um argumento próprio apresenta argumentos avançados pelo proponente que não se encontram explicitamente condicionados por argumentos alheios ou que não constituem formas de os contrapor, ao contrário do que se verifica com os contra-argumentos.
É importante, todavia, esclarecer que os contra-argumentos são argumentos próprios no sentido em que pertencem a um mesmo locutor. Por outro lado, os objectivos que estruturam ambos os blocos textuais passam por sustentar a conclusão própria. Deste modo, num texto argumentativo, a distinção de primeira ordem, no que concerne aos argumentos, deve processar-se no plano dos argumentos próprios e dos argumentos alheios. Será a partir destes que poderemos distinguir enunciados em oposição ou em desacordo pertencentes a um proponente e a um oponente, de acordo com o esquema que se segue:
 


Próprios      Contra-argumentos
Argumentos
Alheios

Para além dos blocos nucleares, conclusão e argumento, um texto argumentativo poderá ser enriquecido por outros blocos textuais não nucleares, que, não sendo fundamentais para a sua estruturação, podem, todavia, revelar-se pertinentes para a dinâmica argumentativa. Um deles é o bloco que apresenta a questão, no qual se anuncia o elemento polémico que suscita o confronto linguístico. No plano textual, a explicitação deste bloco textual permite concretizar o escopo temático do texto, enquadrando a conclusão e os argumentos. Um outro bloco textual que pode integrar o texto argumentativo é a contextualização. Através desta é possível apresentar, de forma mais concreta, os contornos que envolvem a questão a discutir, caracterizar os interlocutores privilegiados, justificar a pertinência da discussão, entre outros aspectos que, no âmbito concreto de um texto argumentativo, se poderão revelar necessários ou pertinentes para o desenvolvimento da argumentação.
Enquanto os blocos questão e contextualização assumem uma acção de enquadramento que abrange todo o texto argumentativo, os blocos conclusão e argumento estabelecem uma relação directa entre si. Esta relação, na sua organização mais simples, implica a existência de um ou vários blocos, os argumentos, que detêm a função de apoiar directamente o segmento que corresponde à conclusão. Estabelece-se, deste modo, uma relação de suporte (Apothéloz e Miéville in Rubattel, 1989) entre argumento e conclusão, de acordo com o modelo que a seguir se esquematiza:
Conclusão

Argumento

Argumento

Nos textos que incluem argumento(s) alheio(s), conclusão alheia e contra-argumento(s), a relação entre blocos poderá ser relativamente distinta, visto que se mantém a relação de sustentação entre argumento(s) e conclusão, mas entre contra-argumento(s)  e argumento(s) alheio(s) existirá uma relação de refutação, dado que o bloco contra-argumento(s) se estrutura em relação ao bloco argumento(s) alheio(s) e/ou ao bloco conclusão alheia , funcionando como uma reacção (de refutação, de restrição ou outra) , como se esquematiza de seguida:



Conclusão alheia
Conclusão própria




Argumento alheio

Contra-argumento




Argumento alheio

Contra-argumento

Num texto argumentativo, os blocos textuais mantêm relações de coerência que são típicas da organização argumentativa. Estas relações subordinam-se aos dois tipos de orientação que é possível apresentar num texto argumentativo: a orientação positiva e a orientação negativa. No primeiro caso, estamos perante uma relação criada entre uma conclusão própria e um argumento próprio que a sustenta e, no segundo caso, esta processa-se entre uma conclusão alheia (ou argumento alheio) e um contra-argumento que a refuta.
A argumentação positiva está estreitamente relacionada com a ordem, progressiva ou regressiva, de acordo com a qual o texto argumentativo se organiza. A ordem regressiva corresponde a uma estrutura argumental na qual a conclusão surge no início do texto, sendo seguida do(s) argumento(s), de acordo com o esquema seguinte:
Conclusão – pois/porque – Argumento
Se atentarmos no tipo de relações de coerência que se podem instituir entre estes dois blocos textuais, concluiremos, na senda de Lopes (2009), que nos textos têm lugar dois tipos de relação: a justificação e a causa. Nesta última, os conteúdos proposicionais de dois segmentos textuais estabelecem entre si uma relação de causa-efeito entre duas situações temporalmente ordenadas. Por seu turno, a justificação processa-se num plano das relações pragmáticas de coerência entre dois segmentos textuais, no qual «the speaker presents one of the segments as an argument to support his (main) claim» (Lopes, 2009).
A relação de coerência existente entre a conclusão e o argumento não se orienta no sentido de apresentar os eventos ou as situações do mundo real, ordenados temporalmente e ligados por um nexo de causalidade. Assistimos, antes, a uma relação de natureza justificativa, onde o bloco textual argumento próprio é avançado como uma justificação para a asserção expressa no bloco conclusão própria, segundo o esquema:
Eu afirmo X, e afirmo X, pois/porque Y
É esta relação que nos permite afirmar que (5) constitui um texto argumentativo, enquanto (6) não:
(5)       A Joana está triste, pois está a chorar.
(6)       A Joana caiu porque foi empurrada.
Em (6), estamos perante um único acto ilocutório assertivo, no interior do qual se apresenta uma relação causal, de acordo com a qual “ter sido empurrado” é a causa que tem como efeito “cair”. Já em (5), estamos perante dois actos ilocutórios assertivos: um primeiro no qual o locutor assere “A Joana está triste”, enunciado apresentado como conclusão; um segundo que corresponde à asserção “(pois) está a chorar”, que se assume como a razão para concluir a tristeza da Joana.
É importante acrescentar, ainda, que a relação causal se distingue da relação justificativa, do ponto de vista prosódico, dado que esta última exige uma pausa entre os dois constituintes (o acto ilocutório 1 e o acto ilocutório 2), o que não ocorre numa relação de causa.
A argumentação positiva pode também estruturar-se segundo uma ordem progressiva, que corresponde à seguinte organização dos blocos textuais:
Argumento(s) – logo/portanto – Conclusão
Neste caso, entre conclusão própria e argumento próprio estabelece-se uma relação conclusiva, na qual o locutor apresenta o bloco textual conclusão própria como conclusão do que é afirmado no argumento próprio, de acordo com o seguinte esquema:
Eu afirmo X, logo/portanto (concluo/posso concluir) Y
      Uma vez que estamos perante uma construção argumentativa, a relação conclusiva que se estabelece, tal como se verificou para a ordem regressiva, processa-se no plano epistémico-ilocutório. O nexo criado vem sinalizar uma relação entre dois actos ilocutórios independentes, que, no seu conjunto, formam um acto ilocutório argumentativo complexo.
As relações de coerência num texto argumentativo poderão ainda associar-se a uma argumentação de orientação negativa. A argumentação negativa assenta numa relação criada entre um contra-argumento e uma conclusão alheia e/ou um argumento alheio. Neste caso, o bloco textual contra-argumento estabelece com o bloco textual alheio uma relação de refutação. O raciocínio associado ao contra-argumento é o seguinte:
O proponente afirma X – Eu, oponente, afirmo não X
(e, desta maneira, sustento a minha conclusão própria)


      2. Em contexto de sala de aula, um texto argumentativo oral formal escolar não resulta, habitualmente, de uma situação real de produção, mas antes de uma simulação. Tal ocorre porque a divergência de opiniões, que dá origem à argumentação, não se desencadeia naturalmente na sala de aula, mas surge, antes, como consequência de uma solicitação do professor. Assim, a exigência de produção oral feita pela Escola é geradora de artificialidade, pelo que somente o desenvolvimento e a exploração de uma simulação associada, neste caso, à oralidade argumentativa, poderão conferir sentido à expressão oral e, assim, gerar textos mais próximos daqueles que a Escola pretende que os alunos produzam ao longo do seu percurso.
Ao processo que contempla a recriação consciente de um conjunto de elementos envolvidos numa argumentação oral formal daremos o nome de jogo escolar. O conceito em causa diz respeito a uma acção que deverá ser promovida, em contexto didáctico, de modo a desencadear a construção de um plano artificial que possa enquadrar a produção argumentativa, dotando-a, consequentemente, de sentido.
      Deste modo, a produção de um texto argumentativo que contemple os elementos do jogo escolar desenvolve-se num plano simulado, onde o aluno, enquanto locutor, dirige um texto argumentativo ao alocutário 1, que corresponde ao público imaginado pelo aluno. Neste plano, o aluno procura, fazendo uso das diferentes componentes do jogo escolar, convocar um conjunto de argumentos que sejam válidos para confirmar ou refutar uma dada conclusão. Por meio deste movimento argumentativo, o locutor visa persuadir o alocutário 1, desenvolvendo um acto de convencer 1, que se trata, também ele, de uma pretensão virtual, atendendo a que todo o contexto que envolve o texto argumentativo é simulado, construído como plausível. O mesmo texto argumentativo funciona, por outro lado, no plano real da produção verbal, envolvendo, como participantes, o aluno, enquanto locutor, e o professor e colegas, enquanto alocutários 2. Neste âmbito, o aluno, ao produzir um discurso argumentativo, estará, em última análise, a realizar um acto de convencer 2, cujo conteúdo é um argumento em favor da conclusão “revelo capacidade de argumentação / de produção de textos argumentativos”, que surtirá efeito caso o professor e/ou os colegas admitam a capacidade/qualidade do aluno, avaliando de forma positiva a sua prestação. O esquema que se segue pretende ilustrar o contexto em que se deve desenvolver a produção argumentativa oral formal em contexto escolar:

Nível 2 (plano real)
     Objectivo da produção                        Quadro espácio-temporal
Participantes: Locutor à Alocutário 2
                                (aluno)    (professor e colegas)
 













      3. A análise de textos argumentativos produzidos por alunos sem preparação prévia aponta para o facto de as suas produções não contemplarem o elemento controvérsia, conclusões alheias ou argumentos alheios. Estes textos centram-se sobretudo na defesa da opinião pessoal, não recriando um contexto de inserção da produção argumentativa que contemple o eixo espácio-temporal, o número e natureza dos participantes na interacção e o próprio objectivo da comunicação (elementos que o jogo escolar mostra serem fundamentais). No plano da estrutura argumental, os textos produzidos sem preparação revelam preferência pela ordem regressiva e pela estrutura argumental simples, assente nos seguintes blocos textuais: questão, conclusão e argumento(s). Uma característica importante nestes textos é o facto de diversos apresentarem uma conclusão dupla, como se observa nos exemplos que se seguem:
(7)       «por um lado sim casar é ter um companheiro […] por outro lado não é preciso casar para ser feliz» A2[22/09/08] – 0:55
(8)       «é assim eu tenho duas opiniões sobre isto» A9[22/09/08] – 2:11’
(9)       «/// eu concordo e por outro lado também não concordo» B9[22/09/08] – 0:46’
A conclusão dupla corresponde, deste modo, a uma dualidade de resposta, que acaba por significar a introdução no texto de dois blocos textuais com função de conclusão, uma a favor de uma posição e outra de refutação dessa mesma posição. Estamos perante um processo de raciocínio em curso, onde o próprio aluno procura definir a sua opinião. Com efeito, este, não conseguindo elaborar uma síntese da sua posição, desenvolve um raciocínio dialéctico, correspondente a um equacionar de posições opostas, ou pelo menos não coincidentes, que resulta numa forma de diálogo entre conclusões distintas, dentro do próprio texto. Esta situação ocorre, a nosso ver, porque a apresentação de um texto argumentativo exige um tempo de maturação prévio, no qual o aluno possa preparar, como afirmámos atrás, os eixos da produção discursiva e ainda definir a própria posição pessoal, pois «los adolescentes […] pueden tener problemas para saber cuál es la tesis que quieren defender, sobre todo cuando se proponen temas de debate que no conocen lo suficiente o que tienen un carácter muy general.» (Cros in Vilà, 2005, destaque nosso).
      A apresentação de uma dupla conclusão leva, por outro lado, à mobilização de uma argumentação dupla, como se observa no excerto que se segue:
Questão
A pena de morte devia ser abolida em todo o mundo
Conclusão1 e Conclusão 2
/ aa eu concordo e não concordo/ aa por um lado eu concordo por aa / por um lado eu não concordo
Argumento (Conclusão 1)

Argumento (Conclusão 2)
porque / se nós a partir do momento que nascemos temos o direito à vida ee aproveitá-la e não desperdiçá-la /

[aa mas por outro lado não concordo]conclusão 2 (retoma) porque ee quando há aquelas pessoas que estão mesmo a sofrer por exemplo acamadas / aa acho que essas / ee também aquelas que ee por exemplo andam por aí a matar essas também não merecem / não têm aa não merecem andar aqui
C5[22/09/08]- 0:36’

      No que respeita às relações de coerência estabelecidas no interior de textos argumentativos orais sem preparação prévia, fica clara a preferência dos alunos pela argumentação positiva. Julgamos que as razões justificativas desta situação são sobretudo de ordem contextual e pragmática. Teremos de recordar que os textos que consideramos são produzidos em ambiente escolar, o que condiciona algumas das suas características. Assim, verificamos que, nestes textos, a conclusão aparece, frequentemente, na sequência de uma questão apresentada pela própria professora. É assim natural que, em termos de gestão textual, o aluno se sinta compelido a iniciar o texto com uma “resposta” à questão colocada, apresentando a sua posição pessoal face ao tema proposto. Não esqueçamos também que a colocação da conclusão em início de texto corresponde à organização preferencial dos blocos textuais no domínio da oralidade.
      Se, por um lado, é um facto que a ordem regressiva condiciona, no âmbito de um texto argumentativo, o aparecimento de uma relação justificação, julgamos, por outro lado, que a opção por esta relação de coerência se fica a dever também ao contexto escolar de produção textual em que ela se enquadra. O aluno assume o seguinte raciocínio: «apresentei a minha posição, agora tenho de justificá-la». Esta organização acaba por corresponder ao modelo de texto de opinião que consideramos o modelo escolar por excelência. Trata-se de um modelo textual adequado a um contexto em que o locutor se sente avaliado, tendo, portanto, de provar as suas capacidades.
      Os resultados da análise de textos argumentativos orais produzidos por alunos conduzem-nos a um conjunto de indicações de natureza didáctica que será importante ter em consideração na abordagem escolar de textos orais. Deste modo, é importante, antes de mais, evitar qualquer recurso ao improviso. Por outro lado, na preparação do texto argumentativo, dever-se-á seleccionar uma questão problemática adequada (que se centre, inicialmente, em temas concretos e objectivos, próximos da realidade dos alunos) e ter em consideração o domínio da persuasão, enquanto objectivo último do texto argumentativo. Será importante, também, promover a consciência do confronto linguístico subjacente a qualquer texto argumentativo. Este domínio poderá conduzir ao desenvolvimento da capacidade de definição da conclusão própria e da selecção de argumentos pertinentes e ainda à diversificação dos tipos de argumentos a utilizar. Noutro plano, a noção de planificação não se deverá esgotar na organização das ideias a apresentar, mas antes alargar-se ao trabalho dos domínios estruturantes da produção verbal, de acordo com as regras do jogo escolar.
Bibliografia
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Kerbrat-Orecchioni, Catherine (1998 [1990]) Les interactions verbales. Approche conversationnelle et structure des conversations. Tome 1, 3è édition. Paris: Armand Colin.
Lopes, Ana Cristina Macário (2009) Justification: a coherence relation, Pragmatics, n.º 19, 2, pp. 241-252.
Lopes, Ana Cristina Macário (1997) A argumentação: uma área de investigação pluridisciplinar. Revista Portuguesa de Filologia (separata), vol. XXI, Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 157-175.
Plantin, Christian (2005) L’argumentation. Paris: PUF.
Plantin, Christian (1996) L’argumentation. Paris: Editions du Seuil.
Perelman, Chaïm e Olbrechts-Tyteca, Lucie (2008 [1958]) Traité de l’argumentation. 6e édition, Bruxelles : Editions de l’Université de Bruxelles.
Rubattel, Christian (ed.) (1989) Modèles du discours : recherches en Suisse Romande. Berne, Francfort-s. Main, New York, Paris : Lang.
Van Eemeren, Frans H. e Grootendorst, Rob (1984) Speech acts in argumentative discussions. A theoretical model for the analysis of discussions directed towards solving conflicts of opinion. Dordrecht: Foris Publications.
Vilà i Santasusana, Montserrat (coord.) et al. (2005)  El discurso oral formal. Contenidos de aprendizaje y secuencias didácticas. Barcelona: Graó.


               
In Luís, Ana R. (ed.) Estudos de Linguística, Vol 1. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012, pp. 131 – 135.




[1] Os blocos textuais que consideramos nucleares – argumento(s) e conclusão - correspondem à noção de macroproposição defendida por Adam (2001). Referimo-nos em particular à P.arg.1 (données) e à P.arg.3 (conclusion). Neste texto, não utilizaremos, porém, o termo macroproposição, dado que, aquando da abordagem da estruturação textual, identificaremos outros blocos textuais que, embora não sejam nucleares nem definitórios do texto argumentativo, são utilizados pelos alunos na organização da estrutura argumental.

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