sábado, 29 de junho de 2013

O jogo escolar como estratégia de enquadramento da argumentação oral formal

O jogo escolar como estratégia de enquadramento da argumentação oral formal

Carla Marques
CELGA, Agrupamento de Escolas de Carregal do Sal
1.       Introdução
Este artigo visa, em termos gerais, abordar a comunicação oral desenvolvida em contexto escolar e, em termos particulares, refletir sobre o tratamento didático da argumentação oral formal. Partindo de uma proposta de conceito de argumentação, serão passados em revista os tipos de blocos textuais que poderão integrar um texto argumentativo bem como as suas possibilidades de organização. Este enquadramento permitirá uma incursão pelo universo didático de tratamento da argumentação oral formal centrada nos conteúdos previstos no Programa de português (2001-2002) para o ensino secundário em confronto com algumas das propostas apresentadas por manuais escolares para este nível de ensino. A partir das conclusões extraídas do cotejo destes documentos avançar-se-á para um estudo de caso assente num corpus oral, constituído por textos argumentativos produzidos por alunos do ensino secundário, que permitirá definir as características destes tipos de textos. Defende-se que este tipo de investigação é um ponto de partida essencial para a compreensão da forma como os alunos produzem argumentação oral, o que terá consequências tanto no plano do enquadramento didático como no da definição dos conteúdos a privilegiar no tratamento desta área da oralidade formal. Por fim, as conclusões extraídas da análise destes textos levarão à apresentação de um quadro didático suscetível de conduzir ao aperfeiçoamento dos textos orais formais produzidos num quadro letivo: o jogo escolar.

2.       A comunicação oral formal
                A comunicação verbal oral é uma competência inata ao homem. Porém, o seu desenvolvimento pleno envolve um vasto conjunto de áreas, que deverá permitir desempenhos adequados tanto no plano individual como social. De facto, a comunicação verbal oral exerce também, por natureza, uma função social que permite ao ser humano interagir com os seus semelhantes, referindo-se às mais diversas realidades, ideias ou sentimentos. A inserção social da linguagem exige aos falantes a capacidade de adequação das produções verbais a diferentes contextos de uso.
Deste modo, saber comunicar em público de forma adequada aos diferentes contextos é, então, uma necessidade social, que se assume como um fator de sucesso e funciona como condição de integração e de acesso a diferentes planos da sociedade.
Neste contexto, a instituição escolar assume um papel fundamental, na medida em que tem, em teoria, a capacidade e as condições para promover junto dos seus alunos o desenvolvimento da competência da expressão oral. É evidente que o papel da Escola deve centrar-se essencialmente no tratamento do oral formal, pois o plano informal da oralidade constitui um domínio mais espontâneo, que é de difícil controlo e relativamente ao qual os alunos revelam desempenhos competentes. À Escola cabe, mais concretamente, a inserção da produção oral no âmbito das relações sociais formais, que exigem desempenhos para os quais os alunos não se encontram preparados, porque aqueles decorrem em situações que, normalmente, não integram as vivências quotidianas dos discentes. O tratamento deste âmbito da comunicação exige à Escola que aborde diferentes géneros textuais, o que permitirá ao aluno o contacto com textos de diferentes características. 
O tratamento da expressão oral tem-se vindo a afirmar paulatinamente no sistema de ensino português. Os programas contemplam-no, os professores reservam espaços letivos para a sua consecução, a avaliação da oralidade começa a estar na ordem de trabalhos. Todavia, estamos ainda perante práticas hesitantes e, por vezes, pouco consensuais. Tudo isto porque o oral é efémero e de difícil sistematização, o que torna a didática da expressão oral difícil e subjetiva.

3.       A argumentação oral formal
O desenvolvimento da expressão oral pode, e deve, associar-se a diferentes tipos de texto. Neste momento, porém, centraremos a nossa reflexão no texto argumentativo oral. Este tipo de texto é contemplado nos programas dos diferentes de ensino, constituindo, na minha opinião, um domínio que exige uma intervenção mais direta da Escola, uma vez que o texto narrativo, em termos gerais, se revela de mais acessível aquisição por parte dos alunos.
A proposta de reflexão sobre o trabalho do oral formal que propomos centra-se no seguinte conceito de argumentação:
A argumentação é uma atividade linguística, fundada num processo intelectual, que surge a partir de uma situação de divergência de opiniões e que tem como objetivo nuclear defender, de modo persuasivo, um determinado ponto de vista, por meio de um texto argumentativo constituído, na sua forma elementar, por argumentos que sustentam uma determinada conclusão. Uma vez que exige a presença, explícita ou implícita, de dois intervenientes, um locutor e um alocutário, a argumentação é, por natureza, uma atividade dialógica, sendo os textos argumentativos inerentemente polifónicos.

Fica assim claro que o texto argumentativo terá de nascer sempre da existência de pontos de vista contrários, pois tal como afirma van Eemeren et al., «se todos estivessem já de acordo, não haveria razões para nos darmos ao trabalho de discutir o assunto»[1] (2002: 29, tradução minha). Todavia, para que a troca argumentativa se efetive, será ainda necessário que um interlocutor pretenda convencer / persuadir outro de que a sua posição é correta. Este contexto é gerador da produção de argumentos, na medida em que o referido interlocutor terá de procurar suportar a sua visão da questão polémica, ou seja, a sua conclusão, por meio de enunciados (argumentos) convincentes (Marques 2010).
                Este conceito de argumentação terá também consequências na forma como se estrutura um texto argumentativo.
Um texto argumentativo é composto por blocos textuais. Estes são segmentos de texto que se organizam e estruturam em torno da função que assumem no interior do texto. No que respeita ao texto argumentativo, em particular, consideramos que, na sua forma mínima, este é composto por dois blocos textuais considerados nucleares:
Argumento(s) – Conclusão

Nesta linha, um texto que apresente blocos textuais que assumam as funções indicadas atrás configurará um texto argumentativo.
A extensão dos blocos textuais não é, em si, uma característica relevante para o assunto em questão. A título de exemplo, o enunciado que se segue é um texto argumentativo composto pelos dois blocos textuais que consideramos mínimos:
2) [A sopa é ótima para as dietas]conclusão [porque reduz o apetite.]argumento

Entre os blocos textuais argumento e conclusão estabelece-se uma relação de suporte (cf. Apothéloz e Miéville in Rubattel 1989: 248-249), de acordo com o modelo que a seguir se esquematiza:
Conclusão

Argumento

Argumento

A ordenação dos blocos textuais é também uma questão a considerar. Neste âmbito, o texto argumentativo pode estruturar-se segundo uma ordem progressiva, que corresponde à seguinte organização dos blocos textuais:
Argumento(s) à Conclusão
Por outro lado, o texto pode organizar-se segundo uma ordem regressiva:
Conclusão ß Argumento(s)
 A opção por uma ou outra organização prende-se com a definição de uma estratégia argumentativa e terá consequências no plano da eficácia argumentativa, tal como é sublinhado por Adam (2001: 115). Deste modo, embora na oralidade a ordem regressiva pareça a preferencial, esta opção, sobretudo no quadro de uma produção oral formal, pode estar dependente da reação que se espera da parte do público, como sinteticamente se indica em van Eemeren et al.:
«Normalmente o ponto de vista a ser defendido deveria ser apresentado na introdução. O falante explica sobre o que ele ou ela irá falar e qual a posição que tomará. Se este considerar que o seu ponto de vista encontrará uma forte resistência, será aconselhável apresentar primeiro os argumentos e levar a audiência passo a passo até à conclusão» (2002: 176, tradução minha).[2]

Textos mais complexos poderão incluir outros blocos textuais, para além da conclusão e dos argumentos. Refiro-me sobretudo aos blocos argumento(s) alheio(s), conclusão alheia, que constituem reproduções do discurso do oponente, e ainda aos contra-argumento(s), que são argumentos elaborados pelo proponente que visam refutar os argumentos do oponente. A relação entre blocos poderá ser relativamente distinta daquela que abordámos anteriormente, visto que se mantém a relação de sustentação entre argumento(s) e conclusão, mas entre contra-argumento(s)  e argumento(s) alheio(s) existirá uma relação de refutação, dado que o bloco contra-argumento(s) se estrutura em relação ao bloco argumento(s) alheio(s) e/ou ao bloco conclusão alheia, funcionando como uma reação (de refutação, de restrição ou outra), como se esquematiza de seguida[3]:



 


Conclusão alheia
Conclusão própria




Argumento alheio

Contra-argumento




Argumento alheio

Contra-argumento


4.       Manuais Escolares
O manual escolar continua a assumir um papel central na condução da prática letiva por parte dos professores, sendo as suas propostas uniformizadoras de determinadas opções didáticas em detrimento de outras. Tal como sustenta Rui Vieira de Castro,
«o "livro de Português" é antologia escolar, é gramática escolar, é caderno de actividades, em suma, o livro de Português é, e é-o também para o professor, a disciplina de Português. Nessa perspectiva, estes textos apresentam-se como lugares excelentes para aceder à compreensão do que são as disciplinas escolares, as práticas que as constituem e os papéis que as desenham, os princípios que as regulam» (1991: 191).

Assim, na prática, o manual de português
«condiciona a actuação do professor [...] [pois] parte-se do pressuposto que uma equipa que faz um manual tem uma determinada credibilidade [...] científica e pedagógica e, às vezes, se algumas actividades vêm sugeridas no manual, por que não utilizá-las?» (Castro 1995: 404)

Estando cientes do papel que os manuais representam no contexto escolar, será importante determinar especificamente a conceção de ensino da oralidade que se veicula, dando particular atenção ao ensino da argumentação oral formal. O tipo de propostas de produção oral e a forma como se organizam permitirá também identificar algumas das atividades desenvolvidas em sala de aula, a sua estruturação, os fins visados e as preocupações metodológicas subjacentes.
                Se procedermos a uma análise das opções gerais que caracterizam os manuais escolares, poderemos concluir que a expressão oral é uma componente parcamente trabalhada. Os manuais privilegiam essencialmente a competência da leitura, concedendo a grande maioria do seu espaço físico à apresentação de textos e de guias de interpretação desses mesmos textos. A escrita surge, assim, em segundo plano, a par, nalguns casos, do estudo do funcionamento da língua/conhecimento explícito da língua. Por fim, surge relegado para um plano de importância menor o trabalho das competências da compreensão e da expressão orais.
                Por outro lado, o trabalho em torno da expressão oral, a ser regulado pelo manual, não está concebido numa perspetiva de progressão, uma vez que a diversificação das atividades de expressão oral passa tão-somente pela apresentação de atividades distintas[4] e não pela reflexão em torno da especificidade da prática oral, incluindo os aspetos paraverbais, e das particularidades textuais que cada contexto de produção exigirá.
O Programa de Português (2001 e 2002) para o ensino secundário apresenta três conteúdos declarativos que poderão ser associados ao estudo da argumentação oral: “texto de apreciação crítica”, “textos publicitários” e “debate”. Se atentarmos na forma como os manuais escolares dão resposta a estes conteúdos do programa, concluímos que estes tipos de texto não são, nestes compêndios, associados a atividades de expressão oral ou sequer a momentos de reflexão relativamente às suas características inerentes. Identificamos alguns manuais que apresentam propostas no sentido de apresentação de uma “exposição oral”, sugerindo percursos para o seu desenvolvimento. Para além da menção a aspetos paraverbais, alguns autores referem ainda a importância de recolher e selecionar informação e de uma organização adequada da informação, o que poderá funcionar como um estímulo para que os professores contemplem as diferentes fases de construção do texto e as acompanhem de modo estruturado. Alguns manuais propõem a produção de discursos orais de natureza argumentativa, discursos políticos e até um julgamento. Porém, nestes casos concretos, a orientação para elaboração dos discursos vai apenas no sentido de indicar que os oradores devem apresentar argumentos. O debate é o único género escolar trabalhado por todos os manuais consultados, o que, julgo, se justifica pelo facto de este ter alguma tradição no âmbito do ensino do Português. Em todos os compêndios atribui-se larga importância às questões organizacionais do debate: diferentes participantes, funções específicas de cada um, organização espacial. Neste contexto, a atividade do moderador é aquela que é mais longamente descrita. Alguns manuais apresentam inclusive planificação das intervenções de um moderador. No que respeita aos participantes, representantes de opiniões distintas, estes veem o seu papel bem menos estruturado, surgindo apenas a referência à necessidade de estes se prepararem previamente, de forma a poderem exprimir opiniões fundamentadas. Assim, os manuais apresentam uma preocupação positiva relativamente aos diferentes elementos que enquadram a realização do debate. Não obstante, a experiência prática que muitos professores terão do desenvolvimento deste tipo de atividade tornarão, eventualmente, redundantes algumas das informações apresentadas. Por outro lado, verifica-se que a recolha de informação, elemento fundamental para a preparação das intervenções dos diferentes participantes no debate, não é geralmente orientada, como se se tratasse de uma competência já claramente dominada. Pela análise realizada é possível constatar ainda que a noção de debate que muitas vezes se trabalha em contexto escolar é a do debate polémico, quando sabemos que existem outras possibilidades de debate que poderão ser desenvolvidas na sala de aula[5].
                Em síntese, em nenhum dos manuais analisados se considera, de modo consistente, que a argumentação oral se pode consubstanciar, em contexto escolar, na produção de textos de natureza monologal e de natureza dialogal, o que corresponderá a géneros escolares como a “defesa oral de um ponto de vista”, o “debate” ou a “troca de impressões”. Não devemos esquecer a importância do desenvolvimento de instrumentos promotores de uma receção ativa e crítica, essencial para uma efetiva interação verbal. Para além disso, os manuais também não propõem um trabalho específico no âmbito da preparação para a definição de uma conclusão e dos argumentos que a sustentam. A organização dos blocos textuais constitutivos do texto argumentativo também não é perspetivada no sentido da sua estruturação pragmática.

5.       Textos argumentativos orais sem plano
No âmbito de um estudo desenvolvido (cf. Marques 2010), recolhi, junto de alunos do ensino secundário, um conjunto de textos argumentativos orais sem plano, cujas características passarei a apresentar brevemente.
A análise global dos textos constitutivos do corpus oral recolhido mostra que a opção didática pelo texto argumentativo oral improvisado, sem recurso, portanto, a uma planificação prévia, gera produtos com características muito específicas do ponto de vista discursivo, que, em pontos muito concretos, se afastam do conceito que apresentámos como definitório do texto argumentativo[6].
Sendo resultante de uma situação de improviso linguístico, o corpus é constituído por textos que, do ponto de vista argumentativo, se enquadram no género escolar “texto de opinião” e evidenciam uma realidade linguística que está dependente da forma como os alunos se apropriam da atividade proposta em contexto escolar.
Antes de mais, é importante salientar que estas produções não revelam uma natureza dialógica que corresponda a um confronto de posições distintas, a própria e a alheia. Perante a questão que lhes é colocada, os alunos geralmente optam por desenvolver um texto onde apresentam, de modo mais ou menos definido, a sua opinião, seguida de uma justificação da posição assumida, tal como se observa no texto que se segue:
«Há vida noutros planetas? na minha opinião acho que não porque principalmente porque não há as minhas características as mínimas condições para um ser vivo viver […]» A13[22/09/08] - 0:31’

O confronto entre a conclusão defendida e uma outra distinta não ocorre nos textos recolhidos. Estes não anunciam sequer a adesão a uma posição mais vasta que, sendo coincidente com a adotada pelos alunos, permitiria um movimento de entroncamento numa perspetiva defendida por um determinado grupo de pessoas, o que contribuiria para reforçar a pertinência da conclusão assumida. Assim sendo, o confronto linguístico, considerado um elemento fulcral para a produção argumentativa, não tem efetivamente lugar. Não obstante, em diversos textos, é possível observar um outro tipo de estrutura dialógica, que poderíamos considerar anterior à definição de uma conclusão própria, onde efetivamente o aluno confronta de modo dialético, diferentes opiniões perante uma dada questão polémica, num movimento textual que procura a síntese, ou seja, a definição de uma conclusão própria (embora este nível raramente seja alcançado). Estes textos exibem aquilo que designamos por conclusão dupla. Trata-se de um movimento textual que corresponde a um equacionar de perspetivas diferentes perante uma mesma questão, sem que os seus autores cheguem efetivamente a defender uma posição pessoal, tal como se observa no texto que se segue:
Observemos algumas destas situações, aqui apresentadas esquematicamente:
Questão
A pena de morte devia ser abolida em todo o mundo
Conclusão1 e Conclusão 2
/ aa eu concordo e não concordo/ aa por um lado eu concordo por aa / por um lado eu não concordo
Argumento (Conclusão 1)

Argumento (Conclusão 2)
porque / se nós a partir do momento que nascemos temos o direito à vida ee aproveitá-la e não desperdiçá-la /

[aa mas por outro lado não concordo]conclusão 2 (retoma) porque ee quando há aquelas pessoas que estão mesmo a sofrer por exemplo acamadas / aa acho que essas / ee também aquelas que ee por exemplo andam por aí a matar essas também não merecem / não têm aa não merecem andar aqui
C5[22/09/08]- 0:36’
A situação descrita resulta, creio, de vários fatores que exigiriam, do ponto de vista didático, uma preparação prévia por parte dos alunos.
Por um lado, considero que o facto de a Escola, na generalidade das suas disciplinas, insistir no “treino” da apresentação de uma opinião pessoal, num modelo algo redutor, associado à estrutura “opinião-justificação”, que, de algum modo, aparece decalcada nas produções dos alunos, se afigura como um fator condicionador das produções obtidas. A incapacidade para identificar uma questão controversa e para a discutir poderá, em parte, ser resultado desta visão algo passiva veiculada pela Escola, onde se insiste mais na sustentação de uma posição do que na problematização da própria conclusão a defender. Não esqueçamos, noutro plano, a influência que poderão exercer os modelos veiculados pelos órgãos de comunicação social, nomeadamente a televisão, onde este modelo de “defesa da opinião pessoal” surge algo estereotipado e é reiteradamente veiculado.
Por outro lado, os alunos, quando colocados em situação de improviso, não reconhecem claramente a vertente de produção argumentativa que está implicada na solicitação do professor, pois não interpretam a questão colocada como objeto de problematização. Dolz e Schneuwly, nas pesquisas que desenvolveram em torno do ensino do oral formal, reiteram «a importância e a dificuldade, sentidas pelos alunos, em identificar uma controvérsia» (2009 [1998]: 33, tradução minha)[7], o que se encontra em consonância com as evidências fornecidas pelo corpus em análise. Considero, porém, que a dificuldade sentida pelos alunos vai ainda além da razão enunciada por estes autores. Como referem van Eemeren e Grootendorst, «um ponto de vista só exige defesa se nem todos estiverem de acordo com ele» (1992: 13, tradução minha)[8]. Ora, é exatamente este elemento que falta aos alunos, quando produzem os textos orais. Estes não encaram a questão apresentada pelo professor como passível de problematização e, logo, como alvo de diferentes opiniões que poderão entrar em confronto. O elemento “controvérsia” não é, por esta razão, mobilizado pelos alunos, que se centram quase exclusivamente na tarefa de defender a sua opinião pessoal. Daqui advém uma falha relativamente ao um dos eixos da produção verbal: o objetivo da interação. Os alunos produzem um discurso oral essencialmente porque a professora lho solicitou, não assumindo claramente enquadramento associado à produção argumentativa, o que implicaria centrar o objetivo da produção discursiva na persuasão do público-alvo. Com efeito, o corpus vem confirmar que os alunos não assumem como objetivo do seu discurso a referida persuasão do auditório, por meio de uma argumentação convincente. Sem orientação nesse sentido, os alunos não conseguem definir uma situação comunicativa e, consequentemente, um contexto que pudesse enquadrar o pedido de discurso oral feito pela professora, pelo que o texto produzido não se centra na esfera do recetor, mas na de quem o produz, ou seja, nos próprios alunos.
Não deixa de ser verdade que a expressão de uma opinião pessoal pode ser considerada como o primeiro passo para dar início à produção argumentativa. Porém, a forma como a atividade de expressão oral que os alunos desenvolvem foi concebida, como um momento de apresentação da opinião, sem direito a interpelação por parte do público, não permite que os alunos entrem em diálogo com o que foi afirmado anteriormente pelos colegas. Se este diálogo não se processa no momento da produção, ele também não ocorre relativamente a posições anteriores conhecidas, que poderiam funcionar como ponto de partida para a definição da opinião pessoal. Os alunos não revelam a capacidade de tomar como ponto de partida outras conclusões já existentes sobre a questão ou, então, não consideram que este movimento dialógico seja importante.
O problema assinalado encontra-se assim claramente associado aos papéis argumentativos. Esta dimensão constitui também uma dificuldade no caso do corpus recolhido, pois o facto de os alunos não considerarem, nos seus textos, uma conclusão alheia implica também que os papéis argumentativos não se encontram preenchidos de acordo com o esperado numa produção argumentativa, ou seja, por meio da definição de um proponente e de um oponente e da consideração das suas conclusões próprias sustentadas por argumentos. Neste quadro, poderemos considerar que, no máximo, os alunos se inscrevem no papel de proponentes de uma determinada posição, o que poderia, eventualmente, funcionar como situação geradora de uma argumentação de natureza dialógica posterior, enquanto a figura do oponente não é preenchida explicitamente. A situação descrita é confirmada pela deficiência que fica patente na construção de um outro eixo da interação verbal: a definição do número e da natureza dos participantes na interação. Tal como refere Kerbrat-Orecchioni: 
«o número de interactantes é uma característica importantes de determinados tipos de interações, seja este número restrito (conversa, entrevista, discussão), ou alargado (cerimónia, receção, colóquio, encontro); mas ele deve ser perspetivado em relação com o “estatuto participativo” dos membros da interação e o “formato” de emissão e de receção» (1998 [1990]: 124, tradução minha)[9].

Ora, no caso concreto dos textos em análise, constata-se que os alunos não dirigem o seu discurso a um interlocutor específico, que deveria ser visado por uma ação de persuasão desenvolvida através da apresentação de um conjunto de argumentos. Tal ocorre também porque os alunos não se assumem declaradamente como proponentes de uma conclusão, que deve ser sustentada de modo a tornar-se convincente.
A importância de se considerar o “auditório” na produção discursiva é sublinhada, por exemplo, por Vignaux, quando afirma:
«Definirei discurso argumentativo como aquele que, a partir do lugar ocupado pelo orador no seio de uma formação social, marca uma posição desse orador sobre um assunto ou um conjunto de assuntos, traduzindo essa tomada de posição diretamente, não diretamente, ou mesmo de forma dissimulada, o lugar do orador na formação social em questão. Esta posição é sempre determinada por um outro, que o orador pode invocar ou não, mas que intervém como referencial delimitativo. É este outro que determina as proposições do discurso, pois é ele o visado pelas asserções ou pelos julgamentos apresentados pelo orador» (1976 : 58, tradução e destaques meus)[10].

Sendo incapazes de contemplar este auditório simulado, os alunos encaram como interlocutores a própria professora, em primeiro plano, e os colegas, em segundo plano, não recriando o jogo escolar que a produção argumentativa exigiria. Os interlocutores efetivamente visados não são, na perspetiva da construção textual, considerados elementos detentores de uma opinião própria face à questão em análise, em relação à qual se tomará uma posição. Este facto leva a que os alunos não integrem no seu texto blocos textuais que diriam respeito à opinião alheia e relativamente aos quais os alunos manifestariam uma posição de adesão ou de refutação. Esta tomada de posição alheia funcionaria também como um referencial delimitativo que funcionaria como enquadramento e condicionador da seleção de argumentos. Nesta medida, julgamos que os colegas e a professora são encarados sobretudo como um “público” que se limita a presenciar a apresentação oral. Por esta razão, a opinião dos recetores do texto não parece ser contemplada e a possibilidade de interação discursiva com estes é assumida como nula.
Acresce também que as produções obtidas mostram que os alunos não revelam capacidade para recriar um contexto de inserção da produção argumentativa. Tal como esclarece Vignaux, qualquer análise de uma argumentação terá de passar obrigatoriamente pelo conhecimento do contexto que a envolve: «o que distingue a argumentação é o facto de esta ser relativa a uma situação» (1976: 32, tradução minha)[11]. Numa abordagem inserida no tratamento da argumentação, van Eemeren destaca também que todos os textos de natureza argumentativa têm lugar numa realidade social específica, que não será possível sistematizar com vista a uma abordagem de natureza científica, mas que, em cada caso, funciona como um enquadramento do texto, envolvendo locutor e interlocutor, os papéis que desempenham, a interpretação que têm da situação argumentativa, as pressuposições relacionadas com valores, ideias, atitudes e a própria relação interpessoal (cf. sobretudo 1987: 11-12).
Por fim, no que se refere ao contexto espácio-temporal, os alunos, quando colocados em situação de improviso, não têm a capacidade de recriar um quadro, que, ainda que simulado, contextualizaria a produção argumentativa. Assim sendo, o eixo espácio-temporal acaba, por defeito, por ser o da sala de aula, no momento em que o aluno se assume como detentor da palavra.   

6.       O jogo escolar
Como vimos anteriormente, a Escola, seguindo os princípios subjacentes aos textos programáticos, não deve privilegiar a comunicação oral informal, mas antes o domínio formal da oralidade.
No espaço escolar, a produção de textos argumentativos orais é entendida como uma atividade formal que se deve promover segundo regras próprias, de acordo com as indicações constantes do Programa de Português (2001 e 2002) para o ensino secundário. Em consonância com o que afirmámos anteriormente, o texto programático preconiza não a abertura da sala de aula à informalidade das interações quotidianas, mas antes o ensino de uma oralidade específica, de cariz formal, e que, portanto, se submeterá a regras distintas daquelas que caracterizam os discursos informais.
Antes de mais, o texto argumentativo oral formal escolar não resulta, habitualmente, de uma situação real de produção, mas antes de uma simulação. Tal ocorre porque a situação de divergência de opiniões, que dá origem à argumentação, não se desencadeia naturalmente na sala de aula, mas surge, antes, como consequência de uma solicitação do professor. Este contexto de produção pode mesmo gerar dificuldades que constituem barreiras à produção oral, como se observou na análise do corpus desenvolvida no ponto anterior. Concluímos, assim, que será muito natural que, face a determinadas questões apresentadas em contexto escolar, o aluno não tenha definido qualquer posição que se possa traduzir numa conclusão a defender. É mesmo possível que nunca tenha refletido sobre o assunto, que poderá, simplesmente, não lhe despertar interesse. Por esta razão, numa situação não escolar, seria muito natural que o aluno não assumisse qualquer posição perante essa mesma questão, o que redundaria na inexistência de um texto argumentativo. Deste modo se constata que a exigência de produção oral feita pela Escola é geradora de artificialidade. Somente o desenvolvimento e a exploração de uma simulação associada, neste caso, à oralidade argumentativa, poderão conferir sentido à expressão oral e, assim, gerar textos mais próximos daqueles que a Escola pretende que os alunos produzam ao longo do seu percurso. Logo, o texto argumentativo que se produz no espaço escolar não é naturalmente motivado, pelo que os seus objetivos poderão ter de ser reconstruídos a partir de uma simulação. Por estas razões, a produção argumentativa em contexto escolar acaba, necessariamente, por se associar a um contexto fictício, que se distingue de um plano real de produção.
Se analisarmos este fenómeno mais detalhadamente, verificamos que só empreendendo um processo de “faz de conta”, os alunos conseguirão atribuir sentido a um texto argumentativo que lhes seja solicitado. A este processo, que contempla a recriação consciente de um conjunto de elementos envolvidos numa argumentação oral formal, daremos o nome de jogo escolar. O conceito em causa diz respeito a uma ação que deverá ser promovida, em contexto didático, de modo a desencadear a construção de um plano artificial que possa enquadrar a produção argumentativa[12], dotando-a, consequentemente, de sentido. Somente no quadro de um jogo escolar, os textos produzidos poderão aproximar-se das características dos géneros estudados e ser perspetivados numa ótica de ensino-aprendizagem construído em torno do conceito de progressão.
No âmbito do jogo escolar, é importante, antes de mais, que o elemento “controvérsia” seja trabalhado. Este terá, muitas vezes, de ser implementado artificialmente, mas que, não obstante, não poderá ser descurado. Na verdade, uma situação de confronto linguístico é fundamental para enquadrar a produção argumentativa, na medida em que, como defende Plantin, «uma dada situação linguística começa a tornar-se argumentativa a partir do momento em que tem lugar uma oposição discursiva» (2005: 63, tradução minha)[13].
Por outro lado, para que a “controvérsia” tenha lugar, é necessário que a produção verbal envolva, pelo menos, dois participantes, em interação direta ou indireta: um proponente e um oponente. Tal significa que, sendo a “controvérsia” simulada, o oponente[14] terá de ser (re)construído pelo aluno, ou seja, o aluno tem de identificar a figura existente ou imaginada, singular ou plural, com a qual vai entrar em controvérsia. Esta construção do oponente, ainda que seja elaborada em traços gerais, só poderá ter sucesso se o aluno encetar um trabalho de pesquisa. A definição de uma imagem do oponente consistente implicará, no mínimo, o conhecimento das suas crenças gerais, da posição que assume perante a questão problemática e dos argumentos que mobiliza em sua defesa.
Existem três elementos que consideramos fundamentais para o desenvolvimento da expressão oral argumentativa: o quadro espácio-temporal, os participantes e o objetivo da interação. No que se refere aos participantes envolvidos numa argumentação, o aluno terá ainda de definir as características do público a quem o texto argumentativo se destina: este identifica-se com o oponente, com quem se entrará diretamente em confronto linguístico, ou trata-se de um público cuja opinião se pretende formar, a partir da persuasão associada à defesa da pertinência da conclusão apresentada? A concretização do tipo de público a quem se destina o texto argumentativo terá consequências nas opções tomadas para construir o referido texto. O objetivo da sua produção poderá ter de se centrar na contra-argumentação ou, por outro lado, poderá exigir que se reforcem os argumentos próprios, pois, como é sabido, o alocutário selecionado exerce um forte condicionamento na orientação argumentativa e na própria definição da natureza dos argumentos a apresentar (cf. Perelman e Olbrechts-Tyteca 2008 [1958]: 7). Para além destes elementos, caberá ainda ao aluno decidir qual o seu estatuto enquanto produtor do texto: assumirá o papel de aluno ou adotará outro?
Todos estes fatores terão de ser alvo de uma simulação consciente por parte dos alunos, para que a produção verbal possa ancorar-se num contexto de produção que lhe confira sentido[15]. Se a Escola descurar a reconstrução destes eixos estruturantes, poderá limitar-se a ter como resultado textos titubeantes e incoerentes, que, do ponto de vista argumentativo, são muito pouco eficazes.
Para além dos eixos estruturantes de uma interação verbal, a produção de uma argumentação oral exige que os alunos conheçam o tema a discutir, para poderem definir uma posição pessoal. A própria seleção de argumentos deverá ser feita em função do público imaginado, para que dela se possa extrair um efeito persuasivo. Por outro lado, este plano da preparação textual exige o conhecimento do oponente, para que, a partir dele, se possam definir as conclusões os argumentos a apresentar. Este último plano de preparação estabelece uma relação estreita com a delimitação dos papéis argumentativos[16].
Caso a Escola não desenvolva, em conjunto com os alunos, as diferentes vertentes do jogo escolar, as produções verbais poderão não sair do vazio de sentidos, podendo limitar-se a funcionar como repetições, algo mecanizadas, de modelos fornecidos pela própria Escola. Esta será uma situação que em nada favorecerá o desenvolvimento da competência da expressão oral, que deve ser perspetiva no sentido de uma gradual autonomia do aluno.
                Para além do plano de simulação, de que já falámos, a produção de textos argumentativos na Escola também tem lugar num plano real, que, muitas vezes, pode interferir no conteúdo do texto e até, de algum modo, condicioná-lo. Este plano real corresponde ao da própria sala de aula, onde efetivamente decorre a produção oral, e ancora-se num quadro espácio-temporal que poderá inclusive ser distinto do do plano simulado. Deste plano real faz também parte um público efetivo, o professor e os colegas de turma, que presenciam a apresentação oral de cada aluno.
Entre o plano simulado e o plano real que envolvem a produção argumentativa encontramos, então, um conjunto de realidades duplicadas que poderão não ser coincidentes: o contexto, o quadro espácio-temporal, os participantes, o público. O esquema que se segue procura ilustrar esta realidade, mostrando que o plano simulado se encontra encaixado no interior do plano real:


Produção argumentativa oral formal em contexto escolar
Nível 2 (plano real)

     Objetivo da produção                        Quadro espácio-temporal

Participantes: Locutor à Alocutário 2
                                (aluno)    (professor e colegas)
Nível 1 (plano simulado)
Questão  ßà Controvérsia linguística
Objetivo da produção
     Quadro espácio-temporal
Participantes: Locutor à  Alocutário 1
                            (aluno)     (público imaginado)

Papéis argumentativos: Proponente à Oponente
 
 














Face ao que foi apresentado, parece-me claro que a Escola não se poderá subjugar apenas a modelos que ela própria veicula e que são difundidos na vida social, nomeadamente através dos meios de comunicação social ou através das interações linguísticas quotidianas. Caberá aos professores tomar a seu cargo a reflexão explícita sobre a estruturação argumental de um texto argumentativo e sobre o tipo de argumentos a selecionar. Todos estes elementos deverão ser conjugados com o objetivo do texto, os participantes envolvidos e a ação de persuasão associada ao ato de convencer. De uma forma global, a Escola não poderá limitar a sua ação ao tratamento da competência linguística, terá também de contemplar a competência comunicativa (cf. Kerbrat-Orecchioni 1998[1990]: 51). Este será um percurso importante para que, por um lado, se possa fazer um uso crítico dos saberes que os alunos já possuem e, por outro, para que os alunos evoluam no sentido de um modelo mais completo e mais proficiente do texto argumentativo.








BIBLIOGRAFIA
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in Revista Palavras, n.º 42-43, Lisboa, APP, 2012-2013, pp. 65 – 78.






[1] «if everyone already agreed, there would be no reason to go to the trouble to argue the case» (van Eemeren et al. 2002: 29).
[2] «Normally the standpoint to be defended should be stated in the introduction. The speaker explains what he or she is going to talk about and what position is taken. If the speaker expects the standpoint to meet with strong resistance, then it may be wise to first mention the arguments and lead the audience step by step to the conclusion» (van Eemeren et al. 2002: 176).
[3] O símbolo  utilizado na esquematização apresentada significa relação de refutação.
[4] Por exemplo, alguns manuais propõem atividades ligadas aos géneros escolares, como o debate, a opinião, a explicação e o depoimento.
[5] Com efeito, será este tipo de debate que, intuitivamente, os alunos desenvolverão no desenvolvimento de um debate em contexto de sala de aula.
[6] Cf. ponto 3 do presente artigo.
[7] «l’importance et la difficulté, pour les élèves, d’identifier une controverse» (2009 [1998]: 33).
[8] «a standpoint only requires defense if not everybody fully agrees with it» (van Eemeren e Grootendorst 1992: 13).
[9]  «le nombre des interactants est une caractéristique importante de certains types d’interactions, que ce nombre soit réduit (conversation, entretien, conciliabule), ou important (cérémonie, réception, colloque, meeting) ; mais il doit être envisagé en relation avec le “statut participatif” des membres de l’interaction, et le “format” d’émission et de réception […]» (Kerbrat-Orecchioni 1998 [1990]: 124).
[10] «Je définirai donc le discours argumentatif comme celui qui, à partir d’une place déterminée de l’orateur au sein d’une formation sociale, marque une position de cet orateur sur un sujet ou un ensemble de sujets, cette position traduisant directement, non directement, ou même déguisant, la place de l’orateur dans la formation sociale considérée. Cette position est toujours déterminée par un autrui, que l’orateur peut rappeler ou non, mais qui intervient comme référentiel délimitatif. C’est cet autrui qui détermine les propositions du discours car c’est lui que visent les assertions ou les jugements reliés par l’orateur […]» (Vignaux 1976: 58).
[11] «ce qui distingue en particulier l’argumentation, c’est qu’elle est toujours relative à une situation» (Vignaux, 1976: 32)
[12] Cremos que o jogo escolar deverá também estar subjacente à produção de outros géneros escolares, quer orais quer escritos. Todavia, este será um aspeto que não desenvolveremos aqui, uma vez que se afasta dos objetivos que norteiam a presente reflexão.
[13] «une situation langagière donnée commence [ainsi] à devenir argumentative lorsqu’il s’y manifeste une opposition de discours» (Plantin 2005: 63).
[14] A reconstrução poderá também visar a figura do proponente, caso o aluno adote uma perspetiva de contra-argumentação.
[15] Dolz e Schneuwly defendem que existe um conjunto de aspetos que se podem ensinar, no sentido de levar o aluno a desenvolver produções orais: imaginar uma situação de comunicação, elaborar e conhecer os conteúdos, organizar e planificar a atividade e textualizar (2009 [1998]: 100 - 101). O primeiro item apontado pelos autores corresponderá à noção de jogo escolar, que aqui apresentamos.
[16] Marques (2010) aborda esta questão do ponto de vista da construção da imagem do locutor no seu próprio discurso, mas também da imagem do alocutário, enquanto elementos estruturantes da atividade argumentativa: «Desde logo, é indissociável da imagem que o locutor traz/dá de si; da imagem que faz e dá do(s) outro(s), seu(s) interlocutor(es), na relação interpessoal que com ele(s) estabelece; complementarmente, torna importante a imagem que este(s) faz(em) do locutor. Entrecruza-se, pois, uma pluralidade de imagens, em função das quais o locutor deve assumir a tarefa de co-construir o discurso. O alocutário não é por isso um objeto passivo que poderá manipular a seu bel-prazer, antes tem de ser considerado como alter-ego, parceiro na atividade discursiva, a quem pretende fazer partilhar uma opinião, uma atitude, uma crença» (2005: 49).

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