domingo, 30 de junho de 2013

Tipologia do erro na escrita e a terminologia linguística para o ensino - Inês Silva

Tipologia do erro na escrita e a terminologia linguística para o ensino
 
SILVA, Inês[1]
SILVA, Cristina Vieira[2]

 

RESUMO

Nas últimas décadas, têm subsistido postulados, por parte dos professores e comunidade em geral, de que os alunos aprendentes de língua apresentam sérios problemas na organização geral e específica das suas produções escritas, o que se reflete igualmente nos resultados apresentados pelos estudantes portugueses no âmbito de avaliações nacionais (provas de aferição e exames) bem como internacionais (PISA).

Estas avaliações, ainda que oferecendo pistas interessantes que permitem monitorizar a evolução verificada ao longo da escolaridade dos estudantes, não oferecem, no entanto, por si só, qualquer ação válida, em termos didáticos.

O conceito de erro, no campo da didática da língua, relaciona-se intimamente com a caracterização proposta nos textos normativos orientadores do Ministério da Educação e com a terminologia linguística.

Em trabalhos anteriores, verificámos a existência do erro em níveis formais, que se prendem com a materialidade da escrita (representação gráfica) e outros níveis relacionados com o plano do texto, inscritos num campo discursivo mais vasto.

A partir de um corpus de textos argumentativos, produzidos por aprendentes da língua, propomo-nos, no presente trabalho, proceder a um levantamento de erros de organização textual e identificar possíveis causas, dado que os diferentes tipos exigem diferentes abordagens pedagógicas.

Procuraremos, ainda, perceber a relação que o levantamento de erros efetuado e consequente caracterização tem com a terminologia linguística (suas convenções, classificações e denominações técnicas) ou se envolve aspetos relacionados com realidades etárias, culturais e sociais, que dela escapam.

PALAVRAS-CHAVE: escrita, terminologia linguística, tipologia do erro, sequência argumentativa

 

 

  1. Introdução

 

Ao nível da expressão escrita, os estudantes portugueses parecem revelar, em termos gerais, dificuldades que são reconhecidas quer pelos docentes (das várias áreas curriculares), quer pelos próprios discentes, e que se encontram, aliás, refletidas no âmbito de avaliações nacionais e internacionais. 

No mais recente estudo comparativo publicado pelo Ministério da Educação (Ucha, 2007), sobre o desempenho dos alunos em língua portuguesa, os resultados relativos à competência Escrita evidenciaram um desempenho mediano, que importa melhorar, atendendo a que é desejável que os nossos alunos atinjam um nível de proficiência superior que lhes permita expressarem-se, relacionarem-se com o mundo e exercerem em pleno uma cidadania ativa.

O desempenho médio dos alunos no final de cada ciclo do ensino básico situava-se, à data, em níveis intermédios, dados estes que vêm corroborar os resultados de Portugal em estudos internacionais como é o caso do Pisa 2003, no qual o número de alunos portugueses no nível 3 (numa escala de 0 a 5) foi superior ao da média dos países da OCDE.

Nas provas de aferição do 4.º ano, como se pode ler no relatório (Ucha 2007: 8), “a competência de expressão escrita é a que apresenta valores intermédios mais significativos”. Em 2004 e 2005, o desempenho dos alunos apresenta-se muito semelhante, havendo a registar, em 2006, um aumento de respostas no valor máximo, bem como um maior número de respostas cotadas com 0.

À semelhança do que se registara já no 4.º ano, também no que respeita ao 6.º ano de escolaridade, “os valores intermédios são os preponderantes na competência da expressão escrita. Entre 2004 e 2005, não se detetam globalmente diferenças significativas. Contudo, em 2006, verifica-se uma subida expressiva da percentagem de respostas no código máximo (37%), o que talvez explique a descida de respostas nos níveis intermédios.” (Ucha 2007:9)

Globalmente, podemos então concluir que a expressão escrita dos alunos do 4.º ano e do 6.º ano apresenta resultados suficientes, revelando os alunos um domínio tido como razoável dos mecanismos básicos de construção de texto.

Quando considerados os resultados dos exames nacionais de Língua Portuguesa do 9.º ano, é de registar que os alunos, ainda que ao nível da produção textual revelem níveis satisfatórios na estruturação e no uso das regras da língua, “não possuem um conhecimento reflexivo e metalinguístico desejável sobre a língua, através do qual o seu desempenho poderia ser superior.” (Ucha 2007:11)

Já no âmbito da atividade docente por nós desempenhada quer no ensino secundário, quer no Ensino Superior Politécnico, a nossa experiência diz-nos que as dificuldades sentidas pelos estudantes se adensam à medida que o grau de exigência vai aumentando, implicando géneros discursivos como o texto de opinião ou o comentário, transferindo-se essas dificuldades do nível microtextual (ortografia e léxico) para o nível macrotextual (sintaxe, coesão e coerência).

A ideia de que professores e sociedade em geral condenam, regra geral, o erro na escrita parece-nos pacífica. Por um lado, ele conduz a apreciações pouco fundamentadas como “o texto está mal organizado” ou “está cheio de erros”, o que cria de imediato uma imagem negativa do escrevente; por outro, o desvio à norma é sujeito a descontos significativos, quando ocorre em respostas de provas de aferição ou de exames nacionais, acabando por influenciar os indicadores dos níveis de desempenho dos aprendentes.

No campo da didática, o conceito de erro emerge de uma visão gramatical da língua, uma vez que ele ocorre quando em confronto com a regra (norma) ensinada.[3] Face a este cenário, o erro está implicado nos descritores de desempenho dos programas oficiais (enunciado que indica o que se espera que o aluno seja capaz de fazer) e nos fatores de desvalorização de respostas das provas e exames. Estes documentos, por sua vez, apoiam-se na Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TL), considerada “uma ferramenta de auxílio ao ensino da gramática e ao estudo dos textos, sendo um documento normativo, que pretende fixar os termos a utilizar na descrição e análise de diferentes aspetos do funcionamento da língua.” (TL 2008: 5)

Assim sendo, o erro na escrita tem sido tradicionalmente associado aos desvios da norma ortográfica vigente e ao não seguimento de regras gramaticais. No entanto, alegar que as dificuldades dos escreventes advêm essencialmente do desconhecimento das regras ortográficas, morfológica e sintáticas, por exemplo, parece-nos insuficiente, face aos contributos das gramáticas textuais e da linguística textual, entre outras disciplinas, que passaram a considerar os problemas na organização das produções escritas. Além disso, uma avaliação pouco consistente em termos de tipologia do erro não leva a uma ação eficaz por parte dos professores de língua, dado que diferentes tipos exigem abordagens pedagógicas diferentes.

Com o presente estudo, propomo-nos então, a partir de um corpus de textos argumentativos, produzidos por aprendentes da língua, proceder a um levantamento de erros a nível da organização textual e a uma classificação dos mesmos, procurando perceber até que ponto a terminologia linguística, documento normativo de apoio ao ensino da gramática e ao estudo dos textos, poderá abrir caminho a uma atividade reflexiva em torno das produções escritas, envolvendo aspetos relacionados com outras realidades do foro cultural e social, por exemplo, como forma de potenciar percursos didáticos a um efetivo ensino da escrita.

 
2. Das tipologias do erro na escrita e da Terminologia Linguística à proposta de aferição do erro de organização do texto argumentativo

 2.1. Tipologias do erro na escrita – alguns exemplos

 Estabelecer uma tipologia do erro, que auxilie os professores no ensino e aprendizagem da língua, tem sido um dos objetivos de investigadores de várias áreas de estudo.        Concentremos a nossa atenção em alguns exemplos.

Maria da Graça Castro Pinto (1998) apresenta os dados de um estudo comparativo de produções escritas em crianças francesas, inglesas e portuguesas do 4.º ano do ensino básico, relativos aos erros ortográficos cometidos nas três línguas, optando por seguir a tipologia proposta por A.Girolami-Boulinier (1984): o erro fonético (erro que afeta o fonetismo das palavras e que se subdivide em erro percetivo e erro de mecanismo de leitura), que correspondeu à categoria de erro ortográfico com percentagem mais elevada em relação ao número total de erros cometidos pelas crianças portuguesas (44,5% em português vs. 39% em inglês e 7,5% em francês); o erro de uso (erro que afeta a forma gráfica da palavra sem atingir a forma auditiva), sendo menos frequente em crianças inglesas (15,5%) do que em crianças portuguesas e francesas, cuja percentagem de erro foi igual (28,5%); o erro linguístico, tanto de morfologia verbal (incorreções a nível das formas verbais) como de identificação/individualização lexical (dificuldades inerentes à individualização ou identificação de palavras lexicais ou gramaticais), considerado mais abundante em francês (56,5%) e em inglês (45%) do que em português (26,5%); o erro de género e número, associado a uma aplicação deficitária das regras de concordância, tendo-se revelado mais frequente em francês (7,5%) do que em inglês e português (0,5%), fazendo ressaltar a homofonia das desinências/terminações verbais.[4]

 

Eis alguns exemplos que caracterizam cada tipo de erro apresentado pela autora[5]:

 

Tabela 1. Exemplificação dos tipos de erros considerados por Pinto (1998)

erro fonético[6]
erro de uso
erro linguístico[7]
erro de gén. e núm.
mesa > “nesa”
chover > “chuver”
põe > “poi”
cara > “caro”
viu-se > “veu-se”
caixa > “caicha
saltou-lhe > “saltole”
pedra > pedro”
começou > “comecou”
sentado > “centado”
está > “esta”
seguintes >“seguinte”
cabeça > “cabeca”
fumar > “fomar”
outra vez > “ou traves”
uma > “um”

 

Sem pretender proceder a quaisquer comparações entre a forma gráfica e a forma auditiva, Inês Silva (2005) propõe um tratamento do erro no texto escrito a partir do conceito de materialidade da escrita[8], entendendo o texto escrito como um objeto linguístico visual, concebido numa materialidade que lhe é própria e característica, diferente da materialidade do texto oral.

A partir de um corpus de 516 textos produzidos por alunos do 3.º ciclo do ensino básico, entre 1998 e 2000, a autora procurou aferir quais os erros dados pelos alunos nos níveis que associou à materialidade da escrita - espaço gráfico, pontuação e ortografia. Recuperamos, para este trabalho, o último (o da ortografia), de que resultou uma tipologia do erro que segue o princípio visuo-gráfico.

 

Tabela 2. Exemplificação dos erros ortográficos considerados por Silva (2005)

1. SUPRESSÃO DE LETRA(S) acentuadas ou não: chorico, orta, agarou-a, averiam, echeu, cove
2. ADIÇÃO DE UMA LETRA: soupa, ensonsso, insonso*, tenrrinhos, derrepente*, desseguida*
3. METÁTESES GRÁFICAS: aporxima*, porvou, cadlo, farde, lavardor, preguntou, preguntavam
4. TROCA / SUBSTITUIÇÃO DE LETRAS: agua, àgua, chourico, bucados, brazinhas, assubiar,
5. SUPRESSÃO DE HÍFEN: lavala*, levoa, pola*, poderia-me*, meteua, deilhe, guardala*, provala
6. SEGMENTAÇÃO DE MORFEMAS E/OU SÍLABAS: deixa-sem, di-se, a sim*, quise-se,  reco-lho
7. DESLOCAÇÃO DE UNIDADES UNIDAS POR HÍFEN: poderiam-me*
8. AGLUTINAÇÃO DE SEGMENTOS AUTÓNOMOS (palavras/morfemas):
apedra, secalhar, aporxima*, desseguida*, dacasa, derrepente*, decomer, outravês*, quelhe, dequem, éque, haver*

 Nota: As palavras acompanhadas de asterisco encontram-se em duas categorias de erro.

Os oito tipos de erros assinalados parecem dever-se, de acordo com Silva, i) ao desconhecimento da imagem gráfica de certas palavras; ii) à não utilização automática de regras linguísticas (morfológicas e sintáticas) e ortográficas[9]; iii) à relação entre o conhecimento oral da palavra e insuficiente conhecimento do código escrito (sobretudo as suas arbitrariedades), que origina “transcrições” - com efeito, a categoria de erro mais preenchida foi a quarta – Troca / substituição de letras, em situação em que um mesmo fonema pode ser representado ortograficamente de diferentes maneiras: é o caso do /s/ em sapato, osso, circo, poça, próximo.

Assumindo a ortografia como um conjunto de regras combinatórias e de usos, ambos codificados, a autora defende um processo de aquisição que inclua o ensino explícito dessas regras e usos, o treino da memória e o desenvolvimento de estratégias pessoais, de associação e de interpretação[10].

Em Cardoso; Costa; Pereira (2002), apresenta-se uma tipologia de desvios ou erros que procura reunir os diferentes níveis de análise linguística, contemplando sete grandes categorias de desvios ou erros: desvios ortográficos, fonéticos, morfológicos, morfossintáticos, sintáticos, sintático-semânticos e semânticos.

Na categoria de desvios ortográficos, integram-se os erros que envolvem o domínio das convenções da linguagem escrita determinadas pelo sistema ortográfico, diferenciando-se dos desvios fonéticos justamente porque estes implicam a alteração do aspeto fonético da palavra, e são assim designados desde que não envolvam o conhecimento explícito de regras de ortografia. A terceira categoria corresponde aos desvios morfológicos, contemplando problemas de identificação de palavras, assim como problemas relacionados com a sua constituição interna, integrando processos morfológicos de flexão e de derivação. A criação da categoria de desvios morfossintáticos, que inclui o nível morfológico e sintático, resultou da necessidade de enquadrar as violações de regras de concordância de género e de número a diferentes níveis da estrutura frásica. A categorização dos erros como exclusivamente sintáticos, como ocorre na categoria desvios sintáticos, é necessária para identificar sequências em que a alteração da ordem básica dos constituintes frásicos resulta numa violação da gramática da língua. Por seu turno, na sexta categoria considerada, dos desvios sintático‑semânticos, pretende-se contemplar as subversões que implicam a competência sintática e semântica, nomeadamente nos erros que envolvem a violação de restrições de seleção e de subcategorização, bem como situações que resultam da omissão de constituintes. Por fim, na categoria dos desvios semânticos, pretende-se contemplar os problemas ao nível dos mecanismos que subjazem à produção de texto, nomeadamente, os que implicam coesão e a coerência, tais como, a determinação nominal, a retoma anafórica, o sistema temporal‑aspectual e os conectores temporais e discursivos.

Face às tipologias apresentadas, todas válidas no apoio à aferição dos erros no processo da escrita, confirma-se que o erro tem sido até hoje associado aos desvios da norma ortográfica (integrada a ortografia na materialidade da escrita ou tida numa relação entre forma gráfica/forma fonética) e ao não cumprimento de regras gramaticais, (morfológicas, sintáticas, lexicais) quaisquer que tenham sido os enquadramentos teóricos adotados ou as metodologias seguidas.

No entanto, a nosso ver, uma tipologia do erro terá de ir mais longe, abrangendo os níveis de organização dos textos.


2.2. Domínios previstos na Terminologia Linguística

Sabe-se que os propósitos da linguística recaem na descrição dos textos pelo analista e os da retórica na descrição dos aspetos composicionais e das regras que estiveram na base de todos os textos, para a produção de textos de acordo com essas regras, que são ensinadas e aplicadas com vista a convencer e a persuadir o público. A nosso ver, o conhecimento de diferentes perspetivas é fundamental para o trabalho do analista-interpretante dos textos escritos pois são elas que lhe facultam os instrumentos de análise para se poderem interpretar os textos e detetar problemas a resolver, essencialmente no caso do professor, no âmbito do ensino e aprendizagem. Sendo assim, analisar para ensinar pode pressupor a cooperação entre linguística, retórica e didática.

A Terminologia linguística (TL), “relevante para a descrição e análise de aspetos da gramática do português”, feita “com o pressuposto de que consistiria numa ferramenta de apoio” (2008: 5), contém termos e definições de cinco domínios gramaticais, sendo o C relativo à Análise do Discurso, Retórica, Pragmática e Linguística Textual. Este domínio compreende, pois, disciplinas, orientações e perspetivas de análise linguística, motivadoras de percursos de reflexão sobre fenómenos textuais, discursivos e comunicacionais, uma vez que se acrescenta à fonologia, morfologia, sintaxe e semântica o estudo do texto e do discurso, passando, por exemplo, a linguística textual a considerar o texto (e não a frase) como a unidade fundamental da análise linguística. Face a este cenário, o texto passou a constituir um conteúdo programático, alvo de reflexão pedagogicamente orientada, tanto no âmbito da leitura como da escrita, sendo assim possível detetar dificuldades por parte dos alunos, quer em termos de receção quer em termos de produção. Por isso, uma tipologia do erro que não dê conta das dificuldades da organização textual apresentadas pelos alunos, podendo elas vir a ser melhoradas ou corrigidas depois de implementada uma ação didática eficaz, é insuficiente.

O conceito incluído na TL estritamente relacionado com a organização textual é o de plano de texto (2008: 128). Na sua explanação, é dito o seguinte:

·         O texto é uma sequência ordenada e hierarquizada de enunciados;

·         Para a configuração do plano de texto, é necessário organizar as suas macroestruturas[11], tendo em conta os preceitos da dispositio, e as microestruturas[12], de acordo com os ensinamentos da elocutio;

·         Esta organização está dependente:

o   da intenção informativa, comunicativa e poiético-representativa

o   de códigos, de regras, de convenções

o   de estratégias discursivas

No nosso entender, o plano de texto corresponde à organização das unidades textuais num todo, em conformidade com a intenção, códigos, regras e estratégias.[13]

Jean-Michel Adam, um dos autores cuja obra é referenciada na TL, refere-se ao plano de texto, dizendo que ele desempenha um papel importante na composição macrotextual do sentido, tal como o da dispositio, na retórica, ao ordenar os argumentos criados na inventio, o que mostra que a definição de plano de texto incluída na terminologia está de acordo com o que autor defende.[14] Associa ao plano de texto a estruturação sequencial[15] (complementar), que dá conta da organização composicional dos textos. Esta compreende tipos de sequências de base (narrativa, descritiva, explicativa, argumentativa, dialogal), podendo um texto comportar uma única sequência, um único tipo de sequência ou sequências de diferentes tipos, que se combinam entre si[16], havendo uma dominante, responsável pela inclusão do texto num determinado tipo.

Estes tipos de sequências de base funcionam como esquemas de estruturação mais ou menos convencionais, com as suas regras próprias de encadeamento (de continuidade-progressão).[17] Ao selecionarmos um corpus de textos argumentativos para este trabalho, produzidos por alunos, levámo-los, no ato da produção, a convocar o conhecimento que já detêm sobre a estruturação deste tipo de texto. Segundo Adam e Bonhomme (2007), a estrutura argumentativa mínima é constituída por um conjunto de dados que permitem chegar a uma conclusão, em que as macroproposições se ligam ou de forma progressiva (dados à [inferência] à conclusão) ou de forma regressiva (conclusão ß [inferência/justificação] ß dados).[18]

Argumentar é, pois, expressar um ponto de vista (conclusão) no sentido de procurar modificar as representações do interlocutor, através de um conjunto de dados que sustentam essa conclusão.

Os textos argumentativos estão incluídos na classificação tipológica proposta na TL (2008:134)[19], sendo eles os “que têm como funções persuadir, refutar, comprovar, debater uma causa, etc., estabelecendo relações entre factos, hipóteses, provas e refutações, com abundância de marcadores e conectores discursivos que articulam com rigor as partes do texto, e apresentando como tempo dominante o presente”.

Partindo desta estruturação, procurou-se listar níveis de análise que permitissem perceber de que forma conseguem os alunos marcar o plano de texto argumentativo, tendo em conta a estruturação das partes (dados/conclusão), com vista a convencer o interlocutor a aderir ao que se defende. 


2.3. Para a definição de parâmetros de aferição do erro de organização do texto argumentativo

Partindo-se da TL e da teorização sobre a estrutura sequencial argumentativa de Adam, consideraram-se, como níveis de análise da organização textual do texto argumentativo, a existência do título, a explicitação da conclusão e dos dados que sustentam a conclusão e, dentro destes níveis, os seguintes parâmetros[20]:

Título: indicativo do conteúdo / * não indicativo do conteúdo / ambíguo quanto ao conteúdo.

Conclusão: demarcada pela pontuação / demarcada por conectores / demarcada por outros fenómenos[21] / *não demarcada textualmente nem recuperável por inferência; válida quanto ao conteúdo: assume uma opinião ou ponto de vista / *não válida quanto ao conteúdo: assume uma posição ambígua ou não assume posição.

Dados que sustentam a conclusão: demarcados pela pontuação / demarcados entre si por conetores / demarcados entre si por outros fenómenos / *não demarcados textualmente nem recuperáveis por inferência; válidos quanto ao conteúdo / *não válidos quanto ao conteúdo; sequencialização ordenada[22] / *sequencialização desordenada; léxico adequado à defesa do ponto de vista / *inexistência de léxico adequado à defesa do ponto de vista.

            Procedeu-se à elaboração de uma grelha de análise com estes parâmetros, a aplicar a cada texto do corpus.

3. Levantamento longitudinal de erros de organização do texto argumentativo em vários níveis de escolaridade

Cientes de que os parâmetros estabelecidos constituem apenas um contributo para aferir eventuais problemas na organização textual de textos argumentativos produzidos por alunos, procedemos agora à apresentação dos resultados obtidos nesta nossa investigação, que implica um processo de vai-vem entre a estruturação global (enunciativa, semântica e pragmática) e a específica (estrutura composicional), uma vez que as partes convergem para a construção do significado global e se relacionam com a articulação interna do texto.

3.1. Constituição do corpus e tipo de texto escolhido

 Foi efetuada, no final do ano letivo de 2010/2011, uma recolha de textos escritos, produzidos por alunos, em escolas portuguesas do ensino básico e secundário e numa instituição de ensino superior politécnico.

O tipo de texto escolhido foi o texto argumentativo justamente porque, constituindo um conteúdo transversal aos programas dos vários níveis de ensino, não é o tipo de texto mais solicitado e valorizado pela escola nos primeiros dez anos. O texto narrativo, possivelmente porque está associado à língua literária, detentora desde sempre de enorme prestígio, é de facto, o mais trabalhado. Assim sendo, quisemos perceber que trabalho está a ser feito junto dos alunos em torno do texto argumentativo e até que ponto estes dominam a sua organização.

 Selecionámos quinze produções escritas de cada ciclo de ensino (do ensino básico ao ensino superior), uma vez que a turma do 1.º ciclo era constituída por quinze alunos. Considerámos este conjunto significativo para aferir as dificuldades dos alunos na organização do texto argumentativo, de forma a podermos determinar eventuais causas e traçar algumas sugestões didáticas, a aplicar em contexto de ensino-aprendizagem da língua.

Também considerámos suficiente, neste estudo longitudinal, analisar produções textuais realizadas em três dos cinco níveis de ensino – 1.º CEB, 3.º CEB e Ensino superior, excluindo os dois níveis intermédios – 2.º CEB e Ensino secundário, por constatarmos que, por vezes, a diferença entre um ciclo e o que está imediatamente próximo não traz grandes novidades em termos de consolidação de conhecimentos.

Passamos, pois, a apresentar os resultados obtidos, após o preenchimento de uma grelha de análise, construída com os parâmetros apresentados no ponto 2.3..

 3.2 Levantamento e análise dos erros de organização textual do corpus do 1.º ciclo

Estes textos foram produzidos em contexto escolar por alunos do 3.º ano do Ensino Básico, em maio de 2011. Após a audição de uma narrativa, intitulada “Mateus e a caixa misteriosa”, os alunos produziram um texto argumentativo, tendo como objetivo sustentar a sua opinião, como ouvintes, sobre a história. O produtor do texto foi o aluno e o destinatário a escritora (e responsável pela leitura em voz alta na aula) da narrativa.

Após leitura e análise dos quinze textos do corpus, verificou-se o seguinte.

Todos os alunos registaram o mesmo título, centrado na página, sendo este precisamente o título do conto que ouviram (“Mateus e a caixa misteriosa), seguido da designação do texto pretendido (“Texto de opinião”). Tanto esta como o título são indicativos do conteúdo. Como todos os alunos seguiram a mesma estratégia, considerou-se que houve instruções explícitas nesse sentido por parte do professor titular de turma (e acompanhante da atividade).

Verificou-se também que todos os alunos explicitaram a conclusão, considerada válida em todas as produções, exceto numa, na qual se afigurou ambígua, o que leva a crer que os alunos deste nível de escolaridade têm interiorizado o facto de num texto de opinião se partir ou se chegar a um ponto de vista bem determinado. Também houve a preocupação, por parte da maioria dos alunos, em demarcar a conclusão textualmente (pela pontuação, conectores ou outros fenómenos), pois só em quatro textos tal não se verificou. Nestes, a conclusão surge, pois, difusa entre os dados que a sustentam. Em relação a estes, dois alunos não procederam à sua explicitação e o erro mais preenchido foi o da sequencialização (que implica o estabelecimento de relações entre factos, hipóteses, provas, refutações), assinalado em sete textos, o que leva à conclusão de que há dificuldades por parte dos alunos em ordenarem logicamente os dados entre si. De facto, pela leitura dos textos, percebe-se que os alunos começam por registar os dados (seguindo maioritariamente a forma progressiva - dados → conclusão), mas intercalando-os com sugestões e críticas, sendo por vezes confuso para o leitor apreender o movimento argumentativo seguido, o que parece revelar ausência de planificação. Assim sendo, uma das possíveis causas para este problema é a ausência de construção de um plano-guia por parte do aluno, que convoca um número significativo de tarefas a desenvolver antes da textualização. É designada fase de planificação, nos programas escolares, sendo uma atividade de caráter complexo do ponto de vista didático. Deve ser introduzida no primeiro ciclo.

Um último aspeto a registar é o seguinte: o facto de só cinco alunos demarcarem os dados através dos conectores e de todos eles manifestarem sucesso na sequencialização ordenada dos mesmos leva a crer que, para colmatar este erro, é fundamental um conhecimento explícito dos conectores e da sua funcionalidade, o que também poderá ser iniciado no 1.º ciclo, exigindo aqui um trabalho de reflexão em torno dos que articulam com rigor as partes do texto.

3.3. Levantamento e análise dos erros de organização textual do corpus do 3.º ciclo

                 Os textos em questão foram produzidos em contexto escolar por alunos do 9.º ano do EB em maio de 2011, em situação de teste de avaliação. Solicitou-se um texto com o mínimo de 180 palavras e o máximo de 240, subordinado ao tema São inúmeros os tesouros que a natureza nos oferece, mas o seu equilíbrio está hoje seriamente ameaçado pela ação dos homens. A orientação, quanto ao tipo de texto pedido, foi a seguinte: Redija um texto, com a forma de artigo para um jornal escolar, apresentando o seu ponto de vista sobre a necessidade de defender a natureza e sobre as formas de o fazer. Os produtores foram os alunos e os destinatários os potenciais leitores do jornal referido.

            Assinalamos, seguidamente, os erros evidenciados no texto, de acordo com a análise feita.

Verificámos a existência do título em oito textos, sendo que, destes, apenas metade é indicativo do conteúdo. Os que não apresentam título (total de sete) indiciam ou esquecimento por parte dos alunos ou dificuldade em dar conta da macroestrutura do texto através dele. É fundamental, no ensino da escrita, explicitar aos alunos a importância do título como parte integrante de um texto, nomeadamente no âmbito do texto jornalístico (caso deste), para orientação do leitor a nível do plano do texto que receciona, no processo de leitura.

Foi pedido aos alunos que apresentassem um ponto de vista sobre a necessidade de defender a natureza e sobre as formas de o fazer, mas a conclusão explicitada (que surgiu quer em início do texto, quer no fim, quer dissimulada nos dados, o que levou, neste caso, ao erro conclusão não demarcada textualmente em seis textos) diz apenas respeito ao primeiro tópico, pois os alunos não apresentaram o seu ponto de vista sobre as formas de o fazer. Estas foram elencadas nalguns textos, a par de outras informações incluídas, o que levou à sequencialização desordenada dos dados, que foram surgindo sem relação lógica entre si em dez textos e não marcados textualmente em nove.

Comparando os resultados do corpus do 3.º ciclo com os do 1.º ciclo, nota-se um acentuar dos mesmos erros assinalados, nomeadamente a ausência de marcação da conclusão e dos dados (a que se acresce a inexistência de título no 3.º ciclo), o que denota uma despreocupação, por parte do produtor do texto, em orientar o leitor na relação entre os argumentos e a conclusão que era suposto o próprio marcar no seu texto argumentativo. E mais uma vez o uso de conectores, na explicitação das partes textuais, foi pouco notório: apenas se verificou em dois textos, a demarcar a conclusão, e em apenas um, a demarcar os dados.

Se a atividade de planificação textual (podendo esta integrar uma reflexão em torno dos conectores a demarcar partes do texto argumentativo), que deveria ser desencadeada no início do ensino básico, fosse continuada como prática assídua nas produções de escrita, a anteceder a textualização, estes erros não seriam tão frequentes no 9.º ano. Os erros assinalados devem-se sobretudo, a nosso ver, à ausência de reflexão a anteceder a produção textual, quer em torno do contexto de produção, quer em torno da estrutura da sequência argumentativa.


3.4. Levantamento e análise dos erros de organização textual do corpus do ensino superior

                 Os quinze textos analisados foram selecionados aleatoriamente de entre cerca de uma centena de provas escritas, realizadas em julho de 2011 por estudantes finalistas da licenciatura em Educação Básica, de uma Escola Superior de Educação, em contexto de avaliação do domínio de língua portuguesa, exigido pelo DL 43/2007 de 22 de fevereiro, para acesso aos mestrados na área de formação de professores.

Tendo por base a leitura de um artigo de opinião do advogado Manuel Veiga de Faria, intitulado “Videovigilância nas escolas ou uma Educação em Cinzas?” (Público, 4 de setembro de 2010), foi solicitado aos candidatos que elaborassem, em 40 linhas aproximadamente, um comentário, no qual deveriam apresentar a opinião do autor sobre a introdução de sistemas de videovigilância nas escolas e expressar a sua posição relativamente à mesma temática. Por questões que têm que ver com os objetivos que presidiram à elaboração desta prova (avaliar não só a expressão escrita, com base na produção textual solicitada, bem como a compreensão leitora, tendo por ponto de partida o texto fornecido), iremos considerar, para efeito da análise destes textos, que a valoração atribuída na nossa grelha de análise ao título do texto (que não foi efetivamente encontrado em nenhuma dos textos produzidos) será aqui atribuída à introdução do mesmo.

No que respeita à introdução, verificamos que, ainda que a maioria dos estudantes tenha identificado globalmente o tema, nem todos os estudantes apresentam uma introdução que dê conta do tema a ser trabalhado, sendo que um chega mesmo a fugir ao tema ou a referi-lo de uma forma bastante vaga.

De assinalar, no entanto, que, no que diz respeito à opinião pessoal sobre a temática, a totalidade dos estudantes explicita-a, demarcando-a geralmente dos dados por parágrafo ou mesmo por conectores. Foi considerada, em todos os casos, válida, quanto ao conteúdo.

Já no que respeita aos dados que sustentam a conclusão, na maioria dos textos produzidos, podemos igualmente considerá-los válidos, mas pouco frequentemente demarcados por marcadores ou outros fenómenos. A principal dificuldade manifestada parece centrar-se na sequencialização ordenada e, pontualmente, na adequação lexical, visando a defesa de um ponto de vista. Ainda assim, podemos afirmar que a maioria dos estudantes produziu um texto estruturado de forma minimamente satisfatória, ainda que com alguns desequilíbrios e descontinuidades no plano da progressão coesiva ou da utilização dos marcadores do discurso argumentativo. Manifestando um domínio razoável de processos de articulação interfrásica, os sinais de pontuação são, no entanto, usados principalmente para marcar pausas, sem seguir sistematicamente as regras, o que, não interferindo com a legibilidade do texto, não deixa de afetar a sua leitura.

Apenas numa das produções analisadas foi possível encontrar um texto no qual as partes surgem segmentadas por parágrafos e ligadas por marcadores próprios do discurso argumentativo. Ainda neste texto, foi possível identificar a utilização de processos variados de articulação interfrásica, como as substituições nominais/pronominais, a concordância ao nível de tempos, modos e pessoas verbais, bem como uma seleção de conectores suscetíveis de expressarem relações diversificadas. É ainda de registar, neste mesmo texto, o uso sistemático, pertinente e intencional da pontuação, demonstrando compreensão da função clarificadora e expressiva destes sinais.

Em termos gerais, consideramos que os resultados ficaram aquém do que se poderia esperar de estudantes que se candidatam a uma formação ao nível pós-graduado, tendo concluído um percurso escolar de doze anos de escolaridade, a que acrescem três anos de uma licenciatura (no âmbito da qual, logo no 1.º ano e ao longo do restante percurso, são trabalhados os diferentes tipos de texto, em aulas de teor essencialmente prático).

4. Considerações finais

 Procurámos, neste trabalho, verificar a existência do erro em níveis de organização textual, que se prendem com os conceitos de plano de texto e de estrutura macroproposicional da sequência argumentativa, uma vez que reunimos um corpus de textos argumentativos de estudantes de língua. De facto, e porque para produzir diferentes tipos de textos é necessário colocar os alunos em situações de uma aprendizagem teórico-prática que os implique num ato refletido de escrita, optámos por um género que convoca técnicas de persuasão para conseguir que o leitor adira à opinião do produtor. Trata-se, pois, porventura do tipo de texto mais ambicioso e difícil de desenvolver, dado que exige um maior domínio na planificação e organização, para além de convocar conhecimento temático exterior.

Conscientes de que em diferentes tipos de texto podem ocorrer erros organizacionais, dependentes da estrutura macroproposicional dominante, elencámos parâmetros de análise para a organização das partes do texto argumentativo, recorrendo à descrição e análise deste presente na TL e à teorização do protótipo sequencial argumentativo, preconizado por Jean-Michel Adam.

O conceito de erro, no campo da didática, ocorre quando se verifica um desvio entre o uso (pelo aluno) e os aspetos gramaticais da língua ensinados, cuja descrição e análise consta de textos normativos, como a Terminologia Linguística. Logo, pareceu-nos legítimo recorrer ao domínio C desta a fim de caracterizar o texto de argumentação, a relação dos dados entre si e entre dados-conclusão.

Ao analisarmos os textos argumentativos do 1.º ciclo (nível inicial) e do 3.º ciclo (nível final da escolaridade básica), a fim de proceder a um estudo longitudinal do erro de organização, verificámos que este reside essencialmente na marcação das relações das macroproposições da sequência argumentativa. Se os alunos manifestaram um conhecimento implícito do movimento subjacente à argumentação, porque de facto eles explicitaram maioritariamente os dados e a conclusão, quer regressiva quer progressivamente, já revelaram dificuldades em relacionar as macroproposições, o que interferiu com a eficácia argumentativa.

Estas dificuldades mantêm-se e revelam-se de forma mais evidente nos textos produzidos pelos alunos do ensino superior, naquele que nos parece ser o corolário de uma tendência para valorizar o conteúdo argumentativo (os textos evidenciam esses mesmos argumentos que sustentam o que se defende, convocando frequentemente conhecimento temático exterior) em detrimento da forma.

Os erros verificados, no nosso ponto de vista, são suscetíveis de correção e aperfeiçoamento através de atividades de ensino-aprendizagem (não estando relacionados, portanto, com realidades etárias, culturais e sociais), que invistam no conhecimento explícito dos processos de escrita, nomeadamente na planificação textual, trabalho que poderá convocar ainda o conteúdo dos conetores e sua funcionalidade na marcação das partes do texto.

Sendo a produção escrita uma atividade na qual interferem diferentes e variados processos que competem por uma capacidade de atenção limitada, é natural que, quando os autores dos textos têm mais dificuldades nas tarefas de conceptualização e planificação, a sua capacidade de controlar os aspetos microtextuais possa ficar comprometida. Certas dificuldades dificilmente são sentidas pelos escritores mais competentes, os quais estarão dotados de estratégias que lhes permitem convocar conhecimento anterior, mas ajustando-o ao plano da escrita. Também por esta razão, defendemos que uma avaliação do texto escrito deverá ter necessariamente em conta toda uma tipologia de erros ou desvios que contemplem nomeadamente os níveis elencados nas tipologias apresentadas, sem deixar de ter em consideração os da organização específica de cada tipo de texto.


Referências bibliográficas:

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Adam, Jean-Michel. 1991. “Cadre théorique d’une typologie séquentielle”. Etudes de Linguistique Appliquée 83. Paris: Didier, p. 7-18.

 

Adam, Jean-Michel. 2006. La Linguistique Textuelle – Introduction à l’Analyse Textuelle des Discours. Paris: Armand Colin.

 

Adam, Jean-Michel; Bonhomme, Marc. 2007. L’Argumentation Publicitaire. Rhétorique de l’Éloge et la Persuasion. Paris: Armand Colin.

 

Cardoso, Adriana; Costa, Manuel L. & Pereira, Susana. 2002. “Para uma Tipologia de Erros”, Ler Educação, 2 (2.ª série), p. 5-25.

 

Costa, João; Silva, Vitor Aguiar e. 2008. Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário. Lisboa: ME – DGIDC.

 

Pinto, Maria da Graça. 1998. Saber Viver a Linguagem – Um Desafio aos Problemas da Literacia. Porto: Porto Editora.

 

Silva, Inês. 2005. Contributos para o Ensino da Escrita. A Materialidade da Escrita em Textos de Alunos do 3.º Ciclo do Ensino Básico. Porto: Edições ASA.

 

Silva, Inês. 2008. Estratégias para escrever histórias. Análise de textos de alunos do ensino secundário. Dissertação de Doutoramento em Linguística - FCSH da Universidade Nova de Lisboa.

 

Ucha, Luísa (coord.). 2007. Desempenho dos alunos em Língua Portuguesa – ponto da situação. Lisboa: ME-DGIDC.



[1] UNL – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Centro de Linguística, Avenida de Berna, 26-C, 1069-061 Lisboa, Portugal, inesmaria@gmail.com
[2] UNL – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Centro de Linguística, Avenida de Berna, 26-C, 1069-061 Lisboa, Portugal/ ESEPF – Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, Rua Gil Vicente 138-142, 4000-255 Porto, Portugal, cristina.vieira@fcsh.unl.pt
[3] Encarando a língua portuguesa como uma entidade linguística complexa, caracterizada por uma grande variedade dialetal, assumimos, tal como proposto na TL, o conceito de português padrão ou norma como a variante do português europeu falada em Lisboa pela classe média e alta e difundida pela escola e pelos meios de comunicação social. O conceito de desvio linguístico, ou erro define-se, justamente, como o afastamento involuntário das construções ou usos linguísticos relativamente a essa mesma variante.
[4] Perante estes dados, e atendendo ainda a uma análise que realizou de um conjunto de 180 textos produzidos por crianças que frequentam o 2.º, 3.º e 4.º anos em escolas da cidade do Porto, a autora (1998: 181) conclui que “O caráter prevalecentemente fonético do sistema ortográfico do português fez-nos admitir a hipótese de que estaríamos face a uma língua em que as produções escritas sugeridas de crianças nos primeiros anos de escolaridade (1.º ciclo do ensino básico) seriam fortemente influenciadas pela perceção da fala no momento da conversão à escrita das suas ideias. (...) Os erros percetivos - os principais responsáveis pela alteração do fonetismo das palavras – são, com efeito, os mais representativos, quando comparados com os erros de uso, com os erros linguísticos (tanto da morfologia verbal como de individualização/identificação) e com os erros de género e número.”
[5] Os exemplos foram retirados de textos das 180 crianças que frequentavam o 2.º, 3.º e 4.º anos de escolaridade, no Porto.
[6] Os dois primeiros são considerados erros percetivos e os dois últimos erros de (mecanismo de) leitura.
[7] Os dois primeiros são considerados erros de morfologia verbal e os seguintes erros de individualização/identificação lexical.
[8] Silva, 2005: 18: “A materialidade da escrita emerge como um complexo sistema de elementos gráficos e suas relações, sendo um dos caminhos (existe também a materialidade fónica e gestual) por onde o sujeito organiza a comunicação. Ele utiliza uma dimensão real (diferente da voz, do fôlego, do gesto) que é a matéria, e, através de uma técnica, nela se marca «lançando um desafio ao tempo (Kristeva, 1999: 38)”. (…) e é vendo essa matéria que  lhe conferimos significado, abrangendo ela o suporte material, a configuração do texto, a organização do branco, o tipo de letra e o material utilizado para o grafar, até chegar à organização do texto, da frase, da palavra, isto é, de um múltiplo e complexo sistema de grafemas. Essa materialidade é concebida por sua vez em diferentes níveis de análise (da escrita): espaço gráfico e técnicas gráficas de colocação dos elementos gráficos no espaço, pontuação e ortografia”.
[9] A autora (2005: 76) refere que, se o aluno conhece essas regras, ele indicia dificuldades na gestão controlada de todo o processo ortográfico, não sabendo aplicá-las em diferentes situações textuais – atente-se, por exemplo, no uso do hífen na conjugação verbal: possivelmente os alunos conhecem as regras de emprego das formas dos clíticos de 3.ª pessoa ou o paradigma verbal, sem contudo conseguirem grafar corretamente as formas verbais no seu texto, fora do paradigma.
[10] Silva, 2005: 33: “Cabe às instituições oficiais divulgar e desenvolver a arte do desenho da palavra, isto é, do desenho codificado das formas pertencentes a um sistema de escrita, apostando, para isso, no desenvolvimento de capacidades não só mnemónicas (no sentido de memorizar apenas o desenho da palavra) mas também psicofisiológicas e motoras, técnicas, de interpretação e de associação, através de diferentes tipos de atividades, no âmbito da leitura e da escrita.”
[11] Macroestruturas textuais: “Representações globais que configuram (…) o sentido de um texto. (…) têm uma organização importante com a organização formal do texto, com as suas partes ou secções, variáveis conforme as convenções dos diversos tipos ou géneros textuais.
[12] Microestruturas textuais: “Conjunto dos elementos verbais que constituem a linearidade dos enunciados de um texto. (…) A elocução (elocutio), indissociável da disposição (dispositio), é a operação retórica de que depende a produção das microestruturas textuais. (cf. Costa & Silva, 2008: 124).
[13] De acordo com Silva (2008: 83), “trata-se de um trabalho de estruturação (construção/ordenação) das unidades (partes), que requer a inscrição de marcas na superfície textual, em função de critérios pragmáticos.”
[14] Adam (2006) fala em planos fixos (fixados historicamente pelos géneros e subgéneros do discurso, em que o plano de um determinado texto cabe plena ou parcialmente num plano previsto) e planos ocasionais (próprios de um texto único).
[15] A sequência é definida por Adam (2006:136-137) como uma estrutura, uma rede relacional hierárquica, uma entidade relativamente autónoma, dotada de uma organização interna que lhe é própria e por isso em relação de dependência/independência com o conjunto mais vasto do qual faz parte. Os cinco tipos de base correspondem aos esquemas de reconhecimento e de estruturação de informação textual. Ver ainda Adam (1990, 1991).
[16] Combinação de sequências proposta por Adam  (2006:184):
·          Sequências coordenadas (sucessão): Seq.1 + Seq.2 + Seq. 3 + Seq. n
·          Sequências inseridas (encaixe): [Seq. 1... [Seq. 2.]... Seq.1]
·          Sequências alternadas (montagem em paralelo): [Seq. 1... [Seq. 2... [Seq. 1 continuação [Seq. 2 continuação Seq. 1 fim] Seq. 2 fim]
[17] Como o autor (2006: 29-31) considera o texto como uma unidade de interação humana, que resulta de um ato de enunciação, há outros níveis a serem considerados no campo de análise textual, para além do da estruturação sequencial: o semântico; o da responsabilidade enunciativa e coesão polifónica; e o dos atos de discurso (ilocutório) e orientação argumentativa.
[18] Na base desta teorização encontra-se a obra de Toulmin, S. 1993 [1958]. Les Usages de l’Argumentation. Paris: PUF.
[19] Esta classificação tem por base os protótipos sequenciais teorizados por Adam, embora inclua tipos não referenciados pelo autor, como o preditivo e o literário -  Cf. Costa & Silva (2008: 134): “Cada tipo de texto pode configurar-se prototipicamente, no sentido do termo protótipo na linguística cognitiva – isto é, o exemplar mais característico, o modelo idealizado, de uma categoria –, ou pode apresentar uma prototipicidade atenuada ou difusa, sobretudo através da sua combinação ou mescla com outros tipos. Jean-Michel Adam, um linguista que se tem ocupado detidamente dos problemas da tipologia textual, defende que um texto é uma entidade demasiado complexa e heterogénea para se poder afirmar que pertence prototipicamente, na sua totalidade, a um tipo, devendo antes a análise tipológica processar-se a um nível menos elevado, através da identificação, delimitação e caracterização das sequências textuais prototipicamente narrativas, descritivas, argumentativas, etc., que permitem classificar, quando dominantes, um texto como narrativo, descritivo, argumentativo, etc. Este enquadramento flexibiliza a classificação tipológica dos textos e permite uma análise mais compreensiva e matizada das suas componentes tipológicas constitutivas.
[20] Os parâmetros com asterisco são considerados erros.
[21] A demarcação das partes do texto através da pontuação, conectores e outros fenómenos como marcadores é demonstrativa da articulação com rigor das partes do texto.
[22] A sequencialização ordenada dos dados implica o estabelecimento de relações entre factos, hipóteses, provas, refutações, aceitando-se quer a ordenação progressiva (dados → conclusão) quer a regressiva (conclusão → dados).

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