sábado, 29 de junho de 2013

O DEBATE ESCOLAR: CONFRONTO OU CONSTRUÇÃO PARTILHADA?

O DEBATE ESCOLAR: CONFRONTO OU CONSTRUÇÃO PARTILHADA?

Carla Marques
CELGA e Fundação Lapa do Lobo
(carlagerardo@netcabo.pt)

Resumo: O debate, enquanto texto argumentativo oral formal é trabalhado, desde há muito, em ambiente escolar. Neste artigo, procuraremos enquadrá-lo enquanto texto argumentativo, destacando as suas características basilares. Recorrendo, de seguida, ao estudo de um corpus autêntico, passaremos em revista os desempenhos do moderador e dos porta-vozes, analisando os produtos textuais da responsabilidade de cada um dos intervenientes. Como resultado deste estudo, apresentam-se, na conclusão, um conjunto de sugestões didáticas, suscetíveis de aperfeiçoar a abordagem desse género oral formal, que apontam sobretudo para a necessidade de se enquadrar o modelo de debate não como um espaço de confronto verbal, numa perspetiva de conflito linguístico do qual deve sair um vencedor”, mas como um momento de construção partilhada de conclusões, que se poderão formar a partir da partilha de ideias e de uma conceção diferente do recurso aos movimentos de contra-argumentação.

Palavras-chave: debate, argumentação oral, oralidade em contexto escolar
Área temática: Linguística e didática do oral

1. Introdução
            O debate é um género escolar oral que se insere no domínio das produções do oral formal, previstas nos Programas de Português. Para um profícuo desenvolvimento deste tipo de produção será importante refletir sobre os aspetos que a caracterizam em contexto escolar. O género debate funda-se nas características gerais do texto argumentativo, pelo que se torna fundamental conhecer as possibilidades de estruturação de um texto desta natureza, com vista à seleção do modelo mais adequado aos objetivos que estão subjacentes à realização de um debate (Marques, 2005 e Vilà, 2005) e à definição de um modelo didático de enquadramento.
            Partindo de um corpus oral recolhido em contexto escolar, pretende-se analisar a importância de eixos fundamentais para a construção de um modelo de debate profícuo, o que nos levará a atentar na importância dos papéis a desempenhar, na estruturação do texto a produzir e no modelo de debate implícito às trocas verbais realizadas.
            Pretende-se, ainda, refletir sobre a importância da conceção de debate que subjaz à organização deste tipo de produções, provando que a perceção do debate como um espaço de conflito de posições pré-definidas é uma perspetiva veiculada socialmente bastante limitada e empobrecedora face ao modelo de debate como partilha e construção coletiva de conclusões (Plantin, 2005 e Dolz e Schneuwly, 1998).

2. Conceito de argumentação
A argumentação é uma atividade linguística, fundada num processo intelectual, que surge a partir de uma situação de divergência de opiniões e que tem como objetivo nuclear defender, de modo persuasivo, um determinado ponto de vista, por meio de um texto argumentativo constituído, na sua forma elementar, por argumentos que sustentam uma determinada conclusão. Uma vez que exige a presença, explícita ou implícita, de dois intervenientes, um locutor e um alocutário, a argumentação é, por natureza, uma atividade dialógica, sendo os textos argumentativos inerentemente polifónicos (cf. Marques, 2010: 63). Das linhas conceptuais apresentadas, realçamos, por um lado, o facto de a argumentação ser uma atividade dialógica, na medida em que implica sempre a presença implícita ou explícita de uma outra pessoa, o oponente, responsável por uma determinada conclusão e por argumentos que a sustentam. Por outro lado, constata-se que a natureza do texto argumentativo, pelas suas características próprias, exige, na sua forma mais simples, dois tipos de blocos ou segmentos textuais[1]: a conclusão própria e o argumento próprio, que a sustenta; num modelo mais elaborado, que contemple já a contra-argumentação, o texto argumentativo inclui também blocos textuais correspondentes à conclusão alheia[2] e ao argumento alheio[3].

3. O debate: características gerais
            Como vimos, a argumentação nasce sempre de uma questão problemática, que, por seu turno, gera posições distintas. O debate, sendo um texto de natureza argumentativo, tem a característica particular de ter origem numa controvérsia que ocorre in loco, associada ao confronto direto entre um propoente e um oponente. Pelas razões expostas, o texto do debate é poligerado, na medida em que resulta de intervenções distintas, pertencentes a diferentes participantes que interagem verbalmente de forma dialógica. Estes participantes produzem um conjunto de blocos textuais que formam um todo discursivo, correspondente ao debate na sua totalidade. Estamos, assim, perante um texto dialogal, que, todavia, se distingue do diálogo informal, dado que, no debate, a produção oral assume um certo formalismo (o que não impede, não obstante, o aparecimento de laivos de informalidade, sobretudo em momentos de maior “intensidade”). Acresce, ainda, que o debate se estrutura em momentos mais ou menos fixos, orientados pela figura do moderador, ao contrário do que ocorre no diálogo informal.
            Sendo um texto da responsabilidade de diferentes intervenientes, o debate exige, noutro plano, o preenchimento de, pelo menos, três papéis discursivos: um moderador, um proponente e um oponente.[4] O moderador assume-se como figura central na estruturação global do debate, na medida em que é este que gere os vários momentos de uma conversação formal regulada, acabando, por esta razão, por condicionar os constituintes maiores do discurso dos diferentes participantes: «il ouvre le débat en exposant et délimitant la question, le cadre de la discussion. De même, il clôt le débat» (Dolz e Schneuwly, 1998: 169). Por seu turno, os participantes no debate assumem funções muito distintas do moderador, na medida em que é a eles que cabe o papel de, por um lado, apresentar e sustentar o ponto de vista que defendem e, por outro, de refutar o ponto de vista dos oponentes. Deste modo, o discurso produzido por estes elementos é suscetível de gerar os seguintes blocos textuais: conclusão própria, argumento(s) próprio(s), conclusão alheia e argumento(s) alheio(s).

4. O debate: um estudo de caso[5]
            Estudos sobre textos orais argumentativos, gerados por um só locutor, mostram que uma das dificuldades associadas à produção do texto argumentativo se prende com o facto de, em contexto escolar, os alunos terem dificuldade em contemplara contra-argumentação (cf. Marques, 2010). Sem preparação prévia, estes centram-se na apresentação da sua conclusão e dos argumentos que a suportam, descurando a conclusão e os argumentos alheios.
            No caso do debate, esta dificuldade não se verifica porque o dialogismo presente neste texto é imediato, efetivo e não tem necessidade de qualquer simulação. Este decorre da presença simultânea dos alocutários, que, num mesmo espaço e num mesmo local, defendem posições distintas perante um público que se procura convencer da pertinência da conclusão defendida. A especificidade dialogal do debate decorre, antes de mais, de uma forte consciência dos eixos estruturantes espácio-temporais da interação verbal. Tal acontece porque esta atividade tem lugar num dado momento e num dado espaço que correspondem efetivamente ao aqui e agora nos quais a produção argumentativa tem lugar. Esta evidência é claramente marcada pelo moderador, logo na abertura do debate:
B13[6] – «Então estamos aqui para realizar um debate»
            No que diz respeito à inscrição dos locutores no texto, inicialmente, os alunos que desempenham os papéis de porta-vozes assumem-se claramente como representantes de uma conclusão coletiva, pertencente ao grupo que representam no debate. Por esta razão, a existência de um locutor plural, “nós”, que tem a seu cargo a realização de um debate, é rapidamente assumida por estes. Esta conceção do locutor surge vincada deiticamente na abertura do texto de cada um dos porta-vozes. Todavia, não é mantida coerentemente ao longo de todo o debate, pois vai-se verificando uma hesitação clara entre o deítico “eu” e “nós”. Os enunciados de A4 e de C1 demonstram a oscilação a que nos referimos:
A4 – «[…] na minha opinião e e sustentado por vários factos aa nós aa na minha no nosso currículo do nosso grupo aa nós achamos que não que os jogos por si só não são um factor suficientemente // imponente para provocar reações aa como vimos nestes massacres que acontecem em escolas»
C1 – «[…] então eu quero pôr sobre a mesa o que é que havemos de fazer para para acabar com os bullys com os praticantes de bulliyng? Será que há uma maneira de acabar com eles? Será que não há? É o que eu quero chegar a uma conclusão com vocês eu e o meu grupo»
Os alunos assumem-se, portanto, como representantes de uma conclusão que não é individual e que resulta de um trabalho preparatório prévio. Todavia, à medida que o discurso avança, assistimos à assunção do “eu” em conflito com o “nós” anunciado no início, o que parece indiciar alguma dificuldade por parte dos alunos em defender, e também em questionar, posições coletivas. A confirmar esta situação parece estar o facto de que, da segunda vez em que os porta-vozes voltam a ser detentores da palavra, estes começam a assumir o discurso como seu, o que fica patente na emergência do deítico “eu”. Observa-se também o questionamento direto dos alocutários, através do qual assistimos à emergência do deítico “tu”:
A11 – «[…] aa disseste também que colocar disseste também que colocar conteúdos aa na internet violentas era estar a ir de desencontro do bem estar das outras pessoas na- a mim não me faz confusão absolutamente nenhuma não me incomoda com o meu bem estar»
C5 – «[…] que não concordo /// eu acho que os videojogos têm influência aa porque ee eti- eu eu andei a procurar e encontrei um estudo […] aa nós também detetámos para outro aa para outro tipo de pessoas […] mas acho que na minha opinião e na do meu grupo isso não é a melhor forma»
A opinião coletiva, marcada pelo deítico “nós”, que abre o debate, rapidamente se desdobra em múltiplos “eu” e abre caminho ao aparecimento do “tu”, a sinalizar que, para os alunos, o confronto linguístico é muito mais natural e motivado se corresponder a uma interação direta entre dois interlocutores singulares. A individualidade vem facultar a produção argumentativa no plano do questionamento, da responsabilização pelo dito e do ataque às posições assumidas. O confronto direto traz à argumentação fatores que permitem uma produção que aparentemente é sentida como mais eficiente e mais natural pelos alunos e deixa exposta a sua dificuldade em não pessoalizar as questões. 
            No sentido de podermos analisar os produtos textuais apresentados pelos alunos ao longo do debate, temos necessidade de considerar, por um lado, o texto da responsabilidade do moderador e, por outro, o texto dos porta-vozes. Assim, no que ao discurso do moderador diz respeito, verificamos que este assume a função de delimitar os vários momentos estruturantes do debate, que, no caso do corpus em estudo, se organizam da seguinte forma:
1.º momento
2.º momento
3.º momento
4.º momento
5.º momento
6.º momento
Abertura do debate
Apresentação das conclusões próprias
Apresentação de argumentos próprios e de contra-argumentos
Apresentação de contra-argumentos
Síntese das conclusões próprias e dos principais argumentos e contra-argumentos
Fecho do debate
No âmbito da estrutura global do debate, as intervenções do moderador resultam da combinação de dois tipos de discurso distintos: um em que este assume a regulação das interações verbais e um outro em que introduz e controla as questões a debater, sobretudo na perspetiva da sua problematização. O moderador associa à regulação das interações vários domínios de controlo. O mais recorrente está relacionado com a gestão dos turnos de fala de cada um dos porta-vozes. O controlo das intervenções é também observável quando o moderador impede interpelações diretas entre alunos ou interrupções, que poderiam encaminhar o debate para um rumo não previsto ou prejudicar a apresentação de ideias:
B13 – «não não entrem em discussão /// terás mais tarde a palavra […]»
B13 – «deixa-o terminar»
O controlo passa também pela gestão do tempo atribuído a cada interveniente para expressar o seu ponto de vista:
B13 – «aa peço desculpa peço-te que termines o mais rapidamente po-»
Também o espaço dado à discussão de cada temática se encontra sujeito a uma regulação:
C5 – «posso?»
B13 – «não eu depois se não não saíamos deste assunto /// aa»
Finalmente, a gestão temporal também passa pela preocupação de distribuir equilibradamente o tempo destinado à discussão de cada tema:
B13 – «eu quero eu quero agora pôr a falar o C1 porque ele os temas que têm estado a discutir não têm a temática dele»
A rigidez verificada no controlo temporal não impede, todavia, o moderador de, numa fase mais avançada do debate, evidenciar alguma flexibilidade, quando considera que a dinâmica da discussão o exige:
B13 – «aa pronto têm de acrescentar aqui um momento ao B8 para responder»
Já no quarto momento, quando os intervenientes entram numa fase interacional mais ativa, marcada por trocas verbais mais ou menos formais, é notória a preocupação do moderador em não descurar a questão temporal:
B13 – «peço-te que sejas breve»
B9 – «vou concluir […]»
B13 – «sejam breves sejam breves»
Não obstante, é também neste quarto momento que se assiste a uma fase em que o moderador perde um pouco o domínio quer da distribuição dos turnos de fala quer do controlo da posse da palavra sem interrupções, o que leva os porta-vozes a assumirem um discurso semelhante ao do moderador:
C5 – «tu achas que isso é alguma coisa de jeito?»
A4 – «calma deixa-me acabar ///»
            Uma outra área do discurso do moderador passa, como afirmámos anteriormente, pela gestão de temas a discutir. Neste plano, o moderador assume-se inicialmente como um desencadeador de intervenções e, posteriormente, como um facilitador de trocas verbais entre os participantes do debate. Por este motivo, o seu discurso tem, em cada momento do debate, uma organização específica. Assim, no primeiro momento, logo após a abertura do debate, o moderador apresenta a questão geral, seguida de uma breve contextualização onde se apontam os motivos que justificam a realização do debate e, de seguida, opta por delimitar quatro questões parciais, extraídas da questão geral, que associa a porta-vozes específicos. Após este momento inicial, o moderador motiva os turnos de fala de cada porta-voz ou grupo de porta-vozes, por meio da introdução de cada uma das questões parciais. O moderador pretende, neste segundo momento do debate, levar os porta-vozes a enunciarem as suas conclusões próprias relativamente a cada uma das questões parciais em debate:
B13 – «temos temas como a comunicação ee a ética que vêm ser defendidos pelo A11 e pelo B8 // temos ainda os jogos de PC com o A4 e o C5 /[…]»
As intervenções dos porta-vozes são desencadeadas, no geral, do mesmo modo: apresentação da questão problemática e contextualização do tema.
A estruturação pela qual o moderador opta dá resposta a uma necessidade básica do debate. Este, para poder ter início, deve partir de uma questão de base, para que os diferentes porta-vozes possam exprimir a sua posição inicial e, a partir dela, apresentar argumentos que a sustentem. A controvérsia nascerá destes elementos iniciais (cf. também Dolz e Schneuwly 2009 [1998]: 167).
A estes blocos do moderador seguem-se as intervenções dos porta-vozes, segundo o tema introduzido. Esta distribuição dos temas pelos diferentes participantes leva o moderador a evidenciar rigidez na associação de um dado tema ao seu porta-voz, não concedendo espaço às trocas verbais entre alunos:
B13 – «aa agora eu quero primeiro que tudo aa dirigir-me aa àqueles que defendem aa»
 A4 – «posso fazer uma pergunta? nós podemos ente- nós podemos entrar em discussão mesmo com aquele que não seja o nosso tema?»
 B13 – «não eu eu eu deixarei aa entrar nessa discussão mais tarde […]»
            A forma como o moderador concebe o segundo momento do debate impede a interação verbal direta entre os participantes. Na realidade, o moderador pretende que cada aluno apresente claramente a posição que defende, antes que o confronto linguístico tenha efetivamente lugar. Esta opção do moderador será importante para o desenrolar do debate, porque será com base nas conclusões próprias inicialmente apresentadas e nos argumentos próprios avançados neste segundo momento, ou já no terceiro, que os contra-argumentos avançados posteriormente se definirão. Caso o moderador não tivesse imposto a produção deste tipo de blocos textuais por parte de cada porta-voz, é possível que o confronto linguístico a ter lugar fosse mais superficial ou redundante, atendendo à importância que ganha no debate a produção de contra-argumentos. Pelas razões avançadas atrás, compreendemos que as poucas trocas verbais que efetivamente têm lugar nesta fase do debate estão relacionadas com a gestão dos turnos de fala e não com as questões em discussão.
            Quando o moderador aborda as questões problemáticas a discutir, não se verifica a existência de trocas verbais entre moderador e porta-voz(es). Embora seja aquele a lançar as temáticas a tratar em cada momento específico, o seu discurso não é construído numa perspetiva de promover as referidas trocas.
No terceiro momento do debate, assistimos a uma alteração da orientação discursiva do moderador. Este passa a dirigir-se especificamente a cada um dos porta-vozes, o que é visível na alteração da seleção deíctica[7], de um “vós”, alocutário plural, para um “tu”, alocutário singular, referencialmente identificado com o porta-voz visado:
B13 – «[…] então aa defendes que ee devemos de certa forma mudar os conteúdos  que que que são apresentados pela internet?»
O moderador procura estimular trocas verbais com o porta-voz, através da apresentação de conclusões alheias ou de contra-argumentos, os quais são introduzidos como uma forma de problematizar a conclusão defendida pelo próprio porta-voz, a propósito de cada questão problemática. Os porta-vozes são, assim, induzidos a apresentar argumentos próprios que possam sustentar as conclusões próprias defendidas[8]. Esta tentativa de concentração da problematização na figura do moderador afigura-se, mais uma vez, como uma estratégia para impedir a desregulação da estruturação geral do debate. Não obstante, neste momento, o moderador procura também desencadear o confronto linguístico entre os participantes que abordam o tema, daí a passagem do turno de fala a um porta-voz que aborde o mesmo tema que acabou de ser tratado e a retoma das conclusões dos porta-vozes no discurso do próprio moderador. Este apresenta a conclusão do porta-voz anterior e pede ao que se segue uma tomada de posição perante o que foi afirmado. No fundo, os participantes dão início a um conjunto de trocas verbais reguladas, na medida em que os turnos de fala são mediados pelo moderador e as temáticas são também selecionadas por ele. Nota-se, todavia, já uma certa tendência dos porta-vozes para fugir ao controlo exercido pelo moderador, no sentido de serem eles a selecionar as conclusões alheias ou os argumentos alheios que estes julgam dever ser rebatidos:
A4 – «[…] aa na tua introdução já agora fugindo um bocadinho já que respondi ao teu à aa tua pergunta na tua introdução tu falaste um bocadinho da da do wrestling de manhã na têvê /»
            No quarto momento do debate, o moderador pretende implementar o mesmo modelo desencadeador do discurso, procurando enriquecer o debate através da intervenção de membros do público. Estimulando, agora, um confronto mais direto entre posições dos diferentes participantes, o moderador pretende continuar a centrar em si o controlo dos assuntos mais polémicos por meio da recuperação de contra-argumentos que refutem as conclusões defendidas por diferentes porta-vozes ou por meio da passagem de turnos de fala, de modo a que o porta-voz seguinte expresse uma visão contrária à que acabou de ser defendida. Todavia, não é o modelo concebido a priori pelo moderador que efetivamente vai retratar a realidade do debate, dado que a determinada altura as trocas verbais entram numa fase mais emotiva e os ataques às conclusões ou argumentos alheios começam a desencadear reações diretas dos porta-vozes. Estes, deixando de sentir o moderador como intermediário, dão início a trocas verbais não reguladas. O seguinte excerto exemplifica esta situação:
A11 – «tu viste o filme?»
A4 – «posso?»
C5 – «vi se estou a falar do jogo é porque o vi»
A4 – «pronto pronto»
A11 – «então o filme só só para esclarecer aa pronto»
C5 – «não é pronto é um filme que»
A11 – «é que o filme por detrás tem motivações e umas das motivações do filme poderia ser implicar a questão dos jogos portanto não sei se o é / mas pode ser»
É neste momento que o debate se orienta no sentido de uma conversação mais informal, marcada por tiradas curtas, que correspondem a uma reação imediata e sincopada ao que foi dito pelo oponente.
            O momento mais vivo do debate corresponde também àquele em que se verificou um maior empenho e interesse por parte de todos os envolvidos, porta-vozes e público. Porém, esta foi a fase em que a produção argumentativa se revelou menos eficaz porque as tiradas curtas e as interrupções, por vezes sucessivas, impediram o desenvolvimento de um discurso completo e eficaz. Este é um momento em que os alunos revelam uma propensão para uma certa agressividade verbal, que se encontra latente na produção argumentativa, o que não corresponde a um conceito de argumentação profícuo, sobretudo em contexto escolar, onde a aprendizagem do respeito pelas posições alheias será um valor a implementar. O apagamento que a figura do moderador sofre neste momento e as visíveis consequências deste facto vêm mostrar o quão importante pode ser a ação desta figura num debate, sobretudo quando realizado em ambiente escolar, num momento em que a aprendizagem dos aspetos relacionados com este género escolar se encontra ainda em curso.
O quinto momento do debate corresponde a um reassumir do controlo das produções discursivas por parte do moderador. Este solicita a cada porta-voz uma síntese das conclusões que defendeu ao longo do debate, sem que proceda a trocas verbais com os restantes alocutários. Na nossa opinião, é exatamente a interdição de realização de trocas verbais entre os alunos que permite ao moderador recuperar o controlo da regulação do debate.
            O texto global que compõe o debate é ainda constituído pelos discursos dos restantes intervenientes na discussão gerada: seis porta-vozes, que representam diferentes grupos de trabalho e a(s) posição(ões) a que chegaram, e também elementos do público, a quem, na quarta parte do debate, é concedido o direito à palavra.
A organização interna do discurso dos porta-vozes está estreitamente relacionada com os diferentes momentos do debate, tal como o moderador os estruturou. Começaremos por observar os blocos textuais relacionados com a apresentação da questão problemática. O moderador desdobra a questão geral em questões parciais, que associa a cada um dos porta-vozes. Vejamos um exemplo de como estes se apropriam delas:
Questão geral do debate
B13 – Então estamos aqui para realizar um debate /// o tema deste debate são a ética e os conflitos //
Questão parcial 1
[…] aa temos temas como a comunicação ee a ética que vêm ser defendidos pelo A11 e pelo B8 // […]
Questão parcial 1
B8 – então boa tarde como sabem estamos aqui hoje presentes para discutir o tema da ética aa da comunicação mas o nosso tema incide um bocado mais na internet e porquê?
Início do texto de A11, após a intervenção de B8
A11 – eu aa nós realmente e as pessoas que são aqui presentes concordamos com uma coisa muito importante que o B8 ilustra // [é que a internet é um espaço livre e portanto se é um espaço livre é um espaço que não pode ser censurado]conclusão própria
            O que se verifica relativamente a cada uma das questões parciais apresentadas é uma operação de restrição temática, orientada no sentido de conferir ao tema em discussão uma maior materialidade. Assim, o debate que deveria incidir sobre “Ética e sociedade” passa a centrar-se na internet e na forma como esta deve ser utilizada.
            Este fenómeno de redução da questão a debater, que ocorre por duas vezes no debate, mostra-nos que os alunos têm dificuldade em abordar de forma argumentativa temas abstratos e/ou relacionados com realidades distintas daquelas que conhecem empiricamente, como resultado de um contacto quotidiano. Daí a preferência por temas como a “Internet”, que constitui uma realidade que integra as suas vivências quotidianas. Este mesmo facto explica por que razão nas questões parciais relativas aos temas “jogos de PC” e “bullying”[9] não se verifica a mesma operação de redução e concretização. Estes temas a debater são suficientemente concretos e próximos dos alunos para serem adotados sem restrições.
Quando procedemos a uma reflexão sobre a especificidade dos blocos textuais mobilizados ao longo do debate, concluímos que existe uma distribuição muito desigual. Verifica-se o domínio dos blocos conclusão própria e, sobretudo, do contra-argumento, o que mostra que o debate se estrutura claramente com base na seguinte conceção: a posição defendida deve ser reforçada (daí também a importância do bloco argumento próprio, que sustenta a conclusão própria) e a posição alheia deve ser rejeitada. Assim, a estratégia geral mais adotada orienta-se no sentido de marcar, desde o início, uma posição, que corresponderá à enunciação da conclusão que, relativamente à questão problemática em discussão, se irá defender.
            No que respeita à conceção de algumas conclusões próprias, observamos que elas se definem em reação a conclusões alheias. Aquelas poderão ser organizadas por meio de um processo genérico de refutação total ou de adesão total à opinião alheia. A intervenção de B11, que apresentamos de seguida, ilustra este processo. Nela, o aluno apresenta duas conclusões próprias: uma que rejeita a conclusão alheia de C5 e outra onde aceita a conclusão alheia de A4:
            B11 – «para já queria discordar totalmente do C5 e concordar com o A4»
Outras conclusões próprias podem resultar de operações de restrição da conclusão alheia. Ou seja, o aluno aceita parcialmente a conclusão de um dado porta-voz, mas considera-a incompleta, pelo que lhe introduz algumas precisões:
B8 – «acho que ee eu concordo com a opinião de os jogos são uma forma de entretenimento /// mas há casos excepcionais ee um dos casos excepcionais de que eu tenho conhecimento é que um ra- um rapaz norte-americano […]»
No que respeita à evolução da ou das conclusões a sustentar ao longo do debate, constatamos que, de uma forma geral, os porta-vozes assumem uma posição, que vem definida à partida e, ao longo do debate, não revelam qualquer evolução relativamente à posição sustentada inicialmente.
Os blocos textuais relativos ao discurso alheio constituem principalmente enunciados que retomam o que foi dito pelo oponente. No debate, os participantes não parecem sentir a necessidade de apresentar de um modo completo as posições alheias, o que se deverá ao facto de proponentes e oponentes se encontrarem face a face, sendo cada um responsável por defender a sua conclusão. Assim, o aparecimento de blocos relativos à conclusão e/ou argumentos alheios resultam de retomas discursivas, levadas a cabo pelo locutor, no sentido de desenvolver um discurso de refutação das ideias avançadas. Estas retomas, que correspondem a segmentos de discurso indireto, ativam somente o tópico principal do texto alheio, deixando as ideias agregadas implícitas:
Argumento alheio
A11 – portanto disseste que ensinar não resultava
Contra-argumento
não não percebo qual é qual é a forma com com que queres levar a situação também não apresentaste nenhuma forma
            Observe-se que, no interior de uma intervenção, não estamos perante uma argumentação de ordem progressiva ou regressiva[10], pois o bloco textual relativo à conclusão pode surgir no início, no final ou mesmo no corpo do discurso. Pode mesmo ocorrer a repetição da conclusão em vários momentos do texto. Os discursos apresentados denotam, portanto, uma organização mais sinuosa, o que prejudica uma apresentação estruturada do raciocínio dos alunos.
            Se atentarmos nas intervenções dos porta-vozes, numa perspetiva da sua composição por segmentos, apercebemo-nos de que existe um predomínio de segmentos textuais construídos em torno do discurso alheio (conclusão ou argumentos). Este facto permite-nos duas conclusões. Em primeiro lugar, os segmentos que assinalámos dentro de cada intervenção colocam em evidência o verdadeiro objetivo que, na ótica dos alunos, orienta o debate: a refutação das posições alheias. Tal fica evidente nas fases nucleares do debate, os terceiro e quarto momentos, onde os blocos de contra-argumento(s) são dominantes. Em segundo lugar, os blocos textuais que constroem o debate não são preparados antecipadamente e, do ponto de vista temático, estão dependentes das ideias apresentadas pelos oponentes. Ou seja, a seleção de contra-argumentos faz-se a partir das conclusões e argumentos alheios e orienta-se essencialmente para a sua refutação. Acresce a esta situação que a forma como se retomam os excertos textuais alheios não obedece a uma abordagem estruturada, na medida em que os alunos vão recuperando ideias dos seus oponentes de modo mais ou menos aleatório. O esquema que se segue pretende ilustrar este processo de retomas, a partir de duas intervenções sequenciais de B8 e A11:
B8 (1.ª intervenção)

A11 (1.ª intervenção)
«[isso não acontece na internet a internet é um espaço livre onde cada um pode chegar a um determinado sítio criar um blog e meter para lá toda a informação que quiser e essa informação deve ser organizada]conclusão própria»

























«[eu aa nós realmente e as pessoas que são aqui presentes concordamos com uma coisa muito importante que o B8 ilustra // é que a internet é um espaço livre e portanto se é um espaço livre é um espaço que não pode ser censurado]conclusão própria […]
[aquilo que tem que haver na nossa opinião aa aquilo que tem que haver é obviamente uma educação de as pessoas dos utilizadores para que perante um conjunto vasto de conteúdos saibam ver aqueles conteúdos que realmente devem ver e que considerar como verdadeiros e conteúdos que não devem]conclusão própria»
B8 (2.ª intervenção)

«[pois dizer que as pessoas são livres de fazer tudo o que quiserem pois isso é muito bonito e na internet até é verdade) ]conclusão própria
[só que quando nós estamos a exceder a nossa liberdade e estamos a pôr em causa o bem estar das outras pessoas que é a de colocar informação de que como adquirir uma arma […] estamos a pôr em causa as outras pessoas / estamos a exceder a nossa liberdade para além do campo delas]contra-argumento
[e isso não é / acho que não é ético nem moral nem deve ser permitido //]conclusão própria
A 11 (2.ª intervenção)
«[aa a internet não é vigiada //]conclusão própria [não é assim nós podemos nós podemos partir do princípio que os senhores estão sentados no Google e estão a ver aquilo que nós estamos a fazer mas aí estaríamos a pôr em causa valores muito básicos]argumento próprio […]
[aa disseste também que colocar disseste também que colocar conteúdos aa na internet violentas era estar a ir de desencontro do bem estar das outras pessoas]argumento alheio

           
No nível textual referente ao agrupamento de blocos textuais, as produções dos alunos não são construídas como um todo. Na verdade a preocupação central dos alunos centra-se na rejeição de cada um dos argumentos alheios e no reforço da conclusão própria. Ora, destes movimentos não resulta um texto que corresponda a um todo coerente, composto por ideias interligadas e progressivas, estamos, antes, perante um texto resultante da adição de segmentos de nível inferior, dispostos de forma linear pelo locutor.
            Estes elementos permitem-nos concluir que os alunos encaram o debate não tanto como um espaço de partilha de ideias e de construção coletiva de conclusões, mas sim como um local onde se extremam posições pré-definidas e se procura atacar as conclusões alheias. O movimento de refutação das posições alheias é levado a cabo quer por meio de contra-argumentos, quer pela capacidade para conquistar a adesão de outros participantes que vêm dar força à conclusão defendida, não tanto pela pertinência dos argumentos selecionados, mas pelo número de pessoas que sustentam a posição. O número elevado de blocos textuais com função de contra-argumentos, que assinalámos atrás, é um sinal claro desta conceção de debate.
             Por outro lado, o processo de abordagem das conclusões alheias também não é desenvolvido no sentido de desencadear uma reflexão e, eventualmente, uma alteração da posição inicialmente defendida. A sua recuperação no discurso de cada porta-voz é feita tão-somente no sentido de uma refutação liminar, que abre lugar à apresentação de uma conclusão própria:
Conclusão alheia
A11 – «[portanto eu pergunto-me como é que] o grupo de pessoas que vai controlar a internet
Refutação da conclusão alheia
que não controla não controla»
Atentando, agora, nos blocos textuais relativos aos argumentos alheios, constata-se que estes surgem sempre numa perspetiva de retoma de blocos discursivos alheios, nunca sendo introduzidos no debate pelo oponente. Não é, portanto, o porta-voz que avança os argumentos alheios. Ao porta-voz fica reservada a função de retomar os argumentos que considera pertinentes e aqueles que eventualmente julga mais fortes, para os rejeitar por meio de contra-argumentos. O recurso aos argumentos alheios no discurso do porta-voz resulta, então, de um complexo processo de retoma não linear, que não obedece a nenhum padrão fixo. As retomas ficam dependentes da sequência das intervenções. Normalmente, os argumentos alheios retomados foram enunciados na intervenção anterior do oponente. Todavia, a ordem pela qual são inseridos no discurso de cada proponente, obedece não a um processo estruturado de contra-argumentação, mas antes à forma como o aluno vai recordando segmentos do texto alheio. Acresce, ainda, que os blocos constituídos por argumentos alheios são sintéticos ou, muitas vezes, elípticos. Estes são da responsabilidade do seu defensor, cabendo ao oponente a opção de os recuperar de modo breve no seu discurso para proceder à sua refutação. Neste plano, opera-se no texto uma densa rede anafórica, através da qual se remete para segmentos textuais anteriores, o que permite uma economia de expressão característica de uma interação verbal. Observemos alguns exemplos de recuperação de argumentos alheios:
            A11 – «e depois tu disseste que não há barreira nenhuma»
A1 – «em relação ao que tu disseste B8 a há bocado [..]
Estas retomas, que correspondem a segmentos de discurso indireto, formam-se sobretudo com base em tópicos do discurso alheio. Note-se, porém, que esta ação de retoma discursiva, através do recurso ao discurso indireto, tal como é desenvolvida pelos alunos, é perfeitamente comum na oralidade, podendo até encontrar-se ao serviço de uma intenção argumentativa.
            Finalmente, no que concerne ao uso do argumento próprio, verifica-se a preferência pelo reforço da conclusão própria com apenas um argumento, o que não será alheio ao facto de nos encontrarmos numa situação de interação verbal que seria prejudicada por intervenções demasiadamente longas e densas. Os alunos preferem distribuir a informação ao longo do tempo, gerindo o seu discurso a partir do que o oponente afirma e não descurando a defesa direta da conclusão própria. É sobretudo no quarto momento do debate que esta opção se torna clara. Tal ficará a dever-se ao facto de as trocas verbais se tornarem mais intensas, sendo que o dinamismo que o próprio debate ganha condiciona o tempo de exposição oral, que acaba por ser mais curto do que o das intervenções que tiveram lugar no terceiro momento. O ritmo rápido imprimido ao discurso leva-os, portanto, a sentir necessidade de selecionar um só argumento em cada intervenção, seja este próprio ou um contra-argumento:
Verificamos, por outro lado, que em cada intervenção não existe apenas um contra-argumento, que rejeite, em bloco, argumentos alheios, apresentados também de forma agrupada. Antes pelo contrário, os alunos têm necessidade de subdividir os argumentos alheios em ideias mais curtas e concretas, de modo a poder, de modo mais eficiente, rebater cada uma das suas partes. Este dado sugere que os alunos têm dificuldade em proceder a operações de síntese do discurso alheio e de, na sua sequência, apresentar um ou mais contra-argumentos, também eles mais abrangentes e menos segmentados.
A capacidade de conceber o texto como um todo registada anteriormente volta agora a representar uma dificuldade para os alunos, o que, em nossa opinião, se fica a dever essencialmente ao facto de estes não terem capacidade de organizar o seu texto à medida que o debate vai decorrendo. A aptidão para estruturar ideias de forma global e para mobilizar argumentos que as sustentem, ou contra-argumentos que refutem o discurso alheio, no decurso de uma interação verbal, não é claramente uma competência adquirida por parte dos alunos.

5. Conclusões
O estudo de uma situação real de debate permite um conjunto de conclusões de natureza teórico-didática que conduzem a uma abordagem mais sustentada deste género oral escolar. Assim, por um lado, observa-se a necessidade de se trabalhar a defesa de posições coletivas ou mesmo de explorar os efeitos argumentativos que se podem extrair do uso do pronome “nós”. Por outro lado, coloca-se em evidência a necessidade de se trabalhar, do ponto de vista didático, o papel do moderador, sobretudo na ação de regulação das trocas verbais, no sentido de desenvolver uma atitude que não deve ser nem demasiado inflexível nem excessivamente permissiva. Este parece ser um equilíbrio que os alunos têm dificuldade em atingir. Emerge também a necessidade de se trabalhar o respeito pela ação que o moderador exerce por parte dos alunos que assumem a função de porta-voz. Ainda no que respeita ao papel do moderador, será importante desenvolver uma preparação para a ação de síntese do discurso, uma vez que este pode também desempenhar uma função de clarificação e de organização, que seria útil ao público.
No plano do conteúdo do texto do debate ficou evidente a relativa imutabilidade das conclusões defendidas, que, como vimos, se prende com a própria conceção de debate que os alunos assumem. Esta situação coloca em evidência que os porta-vozes não têm a capacidade de desenvolver vários ângulos de abordagem do tema em discussão, alguns dos quais poderiam ser estimulados e enriquecidos pelo texto argumentativo do oponente. Uma vez que a posição perante o discurso alheio vem pré-definida como de refutação, os alunos não conseguem incorporar no seu discurso aspetos que poderiam vir a enriquecê-lo e também não se mostram disponíveis para equacionar a validade de alguns argumentos avançados pelo oponente, que poderiam alterar a conclusão defendida inicialmente. A esta fragilidade acrescenta-se a redução da questão problemática a abordar, que vem também desencadear a manutenção de uma conclusão única. Parece ser igualmente evidente que os alunos se encontram muito presos ao modelo de produção argumentativa monogerada, que transferem para o debate em termos de conceção. O debate converte-se, por esta razão, num espaço de defesa de posições únicas, sem que se abram rumos para uma análise coletiva da situação problemática.
Outra dificuldade sobre a qual aqui refletimos fica também a dever-se à orientação fortemente contra-argumentativa do debate. Uma vez que a produção textual se encontra muito dependente das afirmações do oponente, as dificuldades em estruturar o texto são, nestas condições, acrescidas. Fica, deste modo, evidente que seria necessário que os alunos procurassem um equilíbrio entre os contra-argumentos e a defesa da posição pessoal, de modo a conseguir uma construção textual mais equilibrada e bem organizada, o que claramente é um fator importante no que respeita ao domínio da receção do texto. Por outro lado, será importante desenvolver a competência da compreensão oral, no sentido de promover a capacidade de interpretação-seleção-síntese do discurso alheio, para que, no momento da sua retoma, este possa surgir integrado num texto globalmente coeso e coerente.
A partir dos elementos analisados, parece ficar claro que um modelo de debate como construção coletiva de uma posição é um fator a trabalhar em contexto didático, pois à partida os alunos não concebem esta atividade como:
«la construction conjointe d’une réponse complexe à la question comme outil de réflexion qui permet à chaque débatteur (et à chaque auditeur) de préciser/modifier sa position initiale. Autrement dit, les positions des débatteurs au début et à la fin du débat ne sont jamais tout à fait les mêmes: ces positions ont été, dans l’interaction, enrichies des apports des autres» (Dolz e Schneuwly, 2009 [1998] : 166).




[1] As noções de “bloco” ou “segmento” textual correspondem a uma extensão variável de texto, que pode corresponder a uma frase ou a um segmento superior à frase.
[2] Este termo será utilizado para designar a conclusão defendida pelo oponente.
[3] Utilizaremos o termo “argumento alheio” para designar o bloco textual produzido no texto do oponente, como forma de sustentar a conclusão alheia.
[4] Naturalmente, estes papéis são passíveis de serem desdobrados em vários participantes com funções similares.
[5] O estudo de caso aqui apresentado centra-se num debate, que foi preparada em várias fases: motivação, definição de temáticas problematizadoras, investigação, preparação de porta-vozes e do moderador. Este debate foi gravado e, posteriormente, sujeito a transcrição.
[6] Por uma questão de manutenção do anonimato dos alunos envolvidos no estudo, os participantes no debate serão identificados por um número de código.
[7] A alteração deíctica presente no discurso do moderador é equivalente à substituição do deítico “nós” por “eu”, que já assinalámos anteriormente para o discurso dos porta-vozes.
[8] Nota-se, todavia, já uma tendência dos porta-vozes para a introdução de contra-argumentos dirigidos às conclusões e argumentos alheios apresentados pelos outros porta-vozes, situação que o moderador tinha reservado apenas para o quarto momento do debate.
[9] Estas são outras duas questões parciais tratadas ao longo do debate.
[10] A ordem regressiva corresponde à organização conclusão à argumento(s), enquanto a ordem progressiva corresponde a argumento(s) ß conclusão.



Referências bibliográficas

Adam, J.M. (2001) Les textes: types et prototypes. Récit, description, argumentation, explication et dialogue. 4e ed.. Paris: Nathan.
Dolz, J. e Schneuwly, B. (2009 [1998]) Pour un enseignement de l’oral. Initiation aux genres formels à l’école. 4e édition, Paris : Issy-les-Moulineaux.
Kerbrat-Orecchioni, C. (1998 [1990]) Les interactions verbales. Approche conversationnelle et structure des conversations. Tome 1, 3è édition. Paris: Armand Colin.
Plantin, C. (2005) L’argumentation. Paris: PUF.
Vilà i Santasusana, M. (coord.) et al. (2005)  El discurso oral formal. Contenidos de aprendizaje y secuencias didácticas. Barcelona: Graó.



In Atas do 10.º Encontro Nacional da APP: “Há conversas com os programas de português: oral em interação com as outras competências”. Lisboa: Associação de Professores de Português, Março de 2013.



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